Vira-Latas Sob o Céu

Havia sido um dia corrido. Eu tava cansado, não só do dia, mas do mundo, dos carros, do cinza dos prédios, dos olhos tristes perambulando nos rostos que passavam pelas ruas abarrotadas de gente, eu tava cansado de mim.

Desci, como sempre, no mesmo ponto e andei algumas quadras até chegar no prédio onde estava meu belo cafofo de 6 metros quadrados. Como sempre, não entrei de primeira no recinto.

Antes de subir as escadas fiz a minha procissão de todos os dias. Entrei, cagado de fome, no boteco em frente ao prédio, pedi meu cotidiano misto quente e um refri.

Àqueles tempos, eram tempos difíceis, a grana sempre curta e as contas sempre longas, eu não podia me dar ao luxo de comer em qualquer hora, assim, de pronto, logo quando a fome batia; o misto quente da Dona Ivone era o que cabia no orçamento, até porque, quando não cabia, sempre havia um surrado caderno no qual eu poderia assinar meu nome e constituir ali um dívida.

Meus dias eram um quase santo ritual, raramente aparecia algo novo. Até mulheres eram sempre as mesmas, alterando somente o número do CPF e, às vezes, o sotaque.

Como sempre, após pegar meu cotidiano rango, fui sentar-me à calçada. Era, de certa forma, meu momento de meditação, ali eu podia olhar o céu do começo da noite e sentir as ruas com menos transeuntes.

Algo inesperado aconteceu…

Com os passos mancos, as costelas quase à mostra, feio que doía as vistas. Era o retrato de tudo que poderia ser odiado e menosprezado pelo mundo, uma piada mal contada pelos deuses e o destino. Era um cachorro. Exatamente isso. Nada além disso. Sem metáforas.

Com o rabo abanando e com a cara de que foi chutado na mudança veio e ficou ao meu lado. Como quem entendia a mesma calma que eu sentia naquele instante e dela compartilhava também; afinal, o dia não deveria​ ter sido fácil pra ele também.

Minha sensibilidade nunca esteve muito à flor da pele. Mas aquele vira lata conseguiu tocar a campainha de uma alma cheia de ausência.

A grana não era muita, mas fiz tudo o que eu podia. Levantei e num grito disse “Dona Ivone, vê mais um pão aí pra mim, por favor!”

O condenado pelas agruras do destino comeu o tal pão, deu umas duas rodopiadas, um latido rouco e saiu abanando o rabo, feliz da vida.

E ao ver seu andar manco a se distanciar eu sabia que ali começava uma bela e duradoura amizade.

P. Gomes

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Um piadista amador. O resto é pura vaidade pra incrementar o currículo e o epitáfio.

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