Uma Casa Suja.

Minha casa tá suja, muito suja mesmo pra te ser sincero. Tem umas telhas de aranha no teto, isso me incomoda há um tempo, mas nunca as tirei, já viraram parte da decoração. O chão também tá bem sujo, tem umas manchas de café que caíram por descuido, secaram e deixou esse piso meio estranho e pegajoso, nem ando mais descalço. Meus livros roubaram um bom espaço, não são muitos, mas estão tão desorganizados que Paulo Coelho tá do lado de Nietzsche, todos de literatura estão cada um num canto.

Todas essas folhas encardidas acabam ocupando bons metros do meu apê. Têm umas lâmpadas queimadas também, até comprei umas novas há um mês atrás, mas nunca troquei. Dia desses foi o cúmulo; ao chegar vi uma barata me recepcionando na porta, uma coisa meio kafkaniana, esse ato foi a última gota pra estourar de vez a represa da minha paciência.

Decidi! E falo sério, decidi mesmo. Eu sou do tipo que deixa a maré levar e só rema quando os ventos estão revoltos, nesse dia havia uma baita tempestade.

Eu já tinha gastado tanto tempo com outras coisas que me esqueci de limpar a casa. Nunca havia uma brecha na agenda, e tudo foi se deteriorando, quando vi parecia que havia passado um terremoto depois de implodir uma bomba no mesmo local (perdoe o exagero, meu leitor!).

Decisão tomada: Vou me mudar, tão tenho paciência pra uma casa tão suja. Necessário encontrar um novo lugar, um outro bairro, outra praça com outras árvores, um novo habitat.

Comecei a olhar os catálogos dos jornais. Caralho! Era tudo uma merda. Eu até fui visitar outras casas, mas não me agradaram, eu não me sentia à vontade. Não parecia que eram feitas pra mim, casa nenhuma é feita em especial pra uma pessoa, eu sei, mas tem umas onde a gente se enquadra melhor.

Já meio cansado de tanto olhar casas, ia olhar mais uma, tinha ligado pra corretora até, Júlia o nome dela. No caminho contei o meu conflito e minha angústia à Júlia. Ela com um olhar abismado, encarou meus olhos, parecia desnudar minha alma, e então disparou sem pestanejar “Mas que porra é essa?” respondi “O que foi, mulher?!” ela beirando a fúria, que não transmitia lá muita sinceridade, disse “Não é mais fácil arrumar tua casa? Trocar tuas lâmpadas? Tu já viu que outra casa por enquanto não te agrada! Arrume tempo, cabra, e ajeite tua morada! Ninguém muda de casa por ela estar suja”.

Júlia tava certa, eu não queria, de verdade, me mudar. Naquele dia não olhei mais nenhuma casa, desisti.

Desci do carro correndo. Subi o elevador e fui bater naquela porta, o porteiro (Seu Manuca) já me conhecia, nem impediu, até disse “Ainda bem que você voltou, Maria passa todo dia meia tristonha por aqui, diz muito mal bom dia, o que houve?” Seu Manuca haverá de me perdoar, mas ele que se foda. Nem respondi e fui pro elevador correndo.

Entrei estupefato no apartamento, o coração em disparada. Dois olhos olhos assustados, tanto quanto os meus, acompanharam os lábios que disseram “Que tu faz aqui?” respondi “Vim arrumar a bagunça e voltar pra casa!” “Que casa, seu maluco?!” “Teu coração.” Maria minha sorriu, e eu sabia que aquele sorriso era a chave que destrancava a porta.

P. Gomes

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Um piadista amador. O resto é pura vaidade pra incrementar o currículo e o epitáfio.

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