Transubstanciação

Era uma das piores noitadas. De tudo. Tinhamos fechado dois bares já e tinha ido parar na Roosevelt. Ligamos pro Ricardo, o taxista. Ele nos serviu e nós fomos pro terceiro bar. Escolhemos o bar do lado do karaokê bonito. O bar em si era imundo. O banheiro ficava num puxadinho, subindo uma escada de madeira. Fui mijar e bati a canela no degrau mais alto. Me apoiei com as mãos no chão de mijo pra não cair de vez. Sai do banheiro. O Teagá tava lá fora com aquela galera frita.
Tinham trazido um violão. Alguém tava tocando Belchior. Ou Bob Marley. Não importa. Uma gritaria da porra. Fui lá gritar também. Nisso o Teagá me puxa.
– Olha lá. Olha lá.
– O quê?
– Ali pô. Saindo do uber.
Era um tio careca de cavanhaque. Acho que é…
– Olha, é o Mutarelli. OW MUTARELLI! – o Teagá gritou.
Ele tomou um susto e ficou procurando quem tinha gritado.
– Aqui, porra! – gritou de novo o Teagá.
Olhou pra gente. Ficou com uma cara de “quem são esses merdas?”. Acenei. Ele acenou de volta. A gente falou pra galera “olha lá, o Mutarelli”. Todo mundo pouco se fudeu. Ele entrou no karaokê.
Nós curtimos o trampo dele. O Teagá é desenhista e curtia a fase quadrinista dele. Eu pirava nos livros. Concordávamos que ele era foda e completamente doido.
A gente ficou lá. Enchemos mais a cara. Fizemos mais algumas viagens pro banheiro. Quando era umas seis e pouco da matina a gente já tava torto. Monstrengos. O sol tava despontando quando o Mutarelli saiu do bar. Apoiou-se no poste. Soltou um jato de vômito laranja e caiu no chão. Cai um pouco em cima do vômito também. A gente foi lá tentar ajudar. O bicho tava parecendo morto. Ficamos sem saber o que fazer. Ambulância não se importa com bebum. Chamamos o Ricardo.
– Porra. Cês tão que tão hoje. Mais quantas?
– Nenhuma mano. A gente tá precisando do seu serviço de taxista mesmo.
– Onde cês tão?
– Na Roosevelt. Tem um cara aqui passando mal. Dá um help aí.
– Beleza tô indo aí.
– Oooo Ricardo…
– Que que é?
– Traz mais três aí pra gente.
– Haha. Beleza.
Não deu 15 minutos ele tava lá. E o Mutarelli quase morto na calçada. Não acordou pra nada. Mas ele tava respirando. Acho.
– Quem é o cara? Não deu overdose nessa porra não, né? – falou o Ricardo.
– Ele é um escritor. Acho que só tá bêbado mesmo – falei.
– Não, não, não. Ele é desenhista. E agora ele tá atuando. – o Teagá disse.
– Ele não desenha nada faz tempo!
– No último livro dele tem desenhos.
– Mas é livro!
– Livro com desenho é o que porra? É graphic novel! Ele é desenhista!
– Teagá, pelamor. O cara só ficou famoso por causa do livro lá, aquele do Selton Mello, que ele escreveu.
– Nunca! Tá loucão?! Ele já tinha ganhado vários prêmios com os quadrinhos dele!
– Oooo seus filhos da puta. – interrompeu o taxista – vai colocar o infeliz aqui ou não vai?
– Vamos. Vamos colocar o ESCRITOR no táxi. – eu disse.
O Teagá me olhou feio e foi lá pegar as pernas dele. A gente foi o carregando em direção ao táxi.
– Ooooo pó pará. Esse cara tá todo vomitado. No meu táxi não entra.
– Para de putaria, Ricardo. Você ganha mais dinheiro vendendo pó do que fazendo corrida.
– E quem vai pagar pra lavar o banco?
– A gente pode levar ele no porta-mala… – disse o Teagá, meio de brincadeira.
Nisso o Mutarelli acorda do nada e dá uns chutes no ar e diz:
– NÃO! DE NOVO NÃO!
E dá um coice no beiço do Teagá. Eu deixo ele cair no chão e ele levanta rapidinho. Ele olha pra gente com cara de susto e dá um pique, descendo rua abaixo.
A gente viu ele dobrando a esquina, assustado e resolveu aproveitar a carona do taxista pra ir embora, antes de dar qualquer merda. Chega por essa noite.
O carro vai andando devagar. Tá um trânsito da porra na rua Xavier Toledo. Quando a gente tava ali perto do teatro municipal, eu digo pro Teagá:
– Sabe, quando a gente for famoso, eu vou agradecer se algum nóia me reconhecer na rua e me ajudar!
– O cara virou estrelinha quando começou a dar uma de ator. Cinema faz isso com as pessoas.
– Esse caiu nas garras da rede Globo! Virou a cabeça! Daqui a pouco tá andando com o Neymar!
– Pode crer. Vamos parar ali no bar pra tomar a saidera? Só pra esfriar o beiço.
Já são umas oito da manhã. Não tô afim de pegar trânsito nem fodendo.
– Opa. Agora mesmo!
Descemos do táxi. O Ricardo arranja mais umas duas. Deixamos a terceira pra lá.
Sabe como é. É bom não exagerar.

About Rafael Vieira

Escritor de facebook (seja lá o que isso quer dizer) e músico de fachada. Escreve sobre o cotidiano que observa e troca os nomes pra evitar processo. Alguns contos e textos foram publicados por revistas online e antologias, como a Gueto e Gengibre. Pública seus textos em sua página pessoal.

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