Tem sempre uma esperança se prostituindo dentro da gente

É sobre uma velha esperança, aliás, é sobre algo que pouco sei o nome, mas chamo de esperança. É sobre qualquer coisa que dentro de mim se mexe, sobre qualquer coisa que faça barulho, mas que em dias alternados cala. É sobre contradições. Pra falar a verdade é sobre um acumulo de silêncios. De espasmos. De colisões. De estrondos. É sobre qualquer coisa que alimento. Aliás, não é sobre nada. Só vazios. Abismos. Febre. É sobre algo que desconheço, mas vi nascer de perto. É sobre tudo que calei a sós. É um soco no estômago. Um grito de agonia. Uma pele enrugada. Tende também para uma súplica longa. É sobre uma campainha nunca tocada. Uma ligação nunca recebida. É sobre uma espera no portão de casa. Uma porta aberta. Já disse e repito: não é sobre nada. Talvez seja sobre fraquezas (disso o meu armário anda repleto). É sobre complexos. Distâncias. Ânsias. É sobre noites não dormidas. É sobre um vazio de um lado da cama. É sobre todos nós. Mansidão. Quem sabe também seja até sobre um atropelo de trem. Sobre estrelas não contadas. Na verdade mesmo, é sobre qualquer coisa que treme a voz. Pausas longas. Histórias mal contadas. É sobre uma esperança se prostituindo em cada esquina de dentro da gente.

Tem sempre um pedaço de alguém
apodrecendo dentro da gente

Você morreu dentro de mim
E eu esqueci de enterrar
Teu telefone eu tatuei na virilha
Pra jamais correr o risco de esquecer
Lembro do sabor da tua saliva
Escorrendo apressada em minha orelha
Da tua língua quente lambendo
Em círculos o bico do meu peito
Do teu pau roçando duro
Nas minhas costas, os pelo pubianos
Deixando rastros, meu pedaço de pele
Esquecido nas tuas unhas
Teu sexo selvagem me ardia os olhos
Você adorava cuspir na boceta
Que eu não tinha, eu gemia
E contorcia o punho repetitivamente
Teus dedos longos e certeiros
Chegavam valentes nas minhas entranhas
Eu eloquente tremia na transa
Mas você morreu dentro de mim
E eu esqueci de enterrar
Espalhei fotos tuas por toda a casa
Em cada canto um jeito torto teu
Até no teto teu corpo nu fazia morada
Cheio de pele e cansaço teu olhar morno
Já era o sinal do desgate do nosso enlace
O som do despertador do meu celular é uma
Gravação da tua voz rouca me dando bom dia
Eu estou enlouquecendo e vendo teu rosto
No sinal amarelo do trânsito da avenida
Vou luzindo sem posses do cheiro teu
Recriando teu rosto na ausência do conforto
E seguindo cabreiro com os pés cambaleando
Ainda desacreditado que você me traiu

com o porteiro.

Quando a gente põe a esperança pra dormir

não houve e-mail convidando para o cinema
nem mensagem puxando conversa longa
esperei até três da manhã por algum recado
nada! nem sinal de fumaça, carta, código morse
chamada de vídeo, fax, nem rádio, nada!
qualquer barulho mínimo no portão causa alarde
a campainha parece inexistente, intocada
telepatia, whatsapp, carta, e-mail
nenhuma notificação nova
a esperança é um veneno lento
não houve convite casual numa terça-feira
nem sinal de bom dia ou beijo molhado na cama
nem café depois das onze
a dor do silêncio castiga a pele
e nada é mais indecente que o meu olhar
de menino triste mirado com a vista pra rua
eu não sou valente e finjo no olhar estático
a dureza de quem disfarça a faca no sorriso
a carne é dura e mal nenhum me desarma o corpo
não houve chamada perdida,
nem sua voz rouca pedindo pra voltar,
veio a insônia, os olhos fundos, a ânsia de vômito
emagreci oito quilos, me afastei da vizinhança
perdi o emprego, minhas juntas mofaram
a casa emudeceu empoeirada e vazia
a porta está sempre aberta – espero por quem não vem
não houve nada, nem você com os pés sujos pela sala
nem o som do barulho da porta se abrindo

a esperança é um atropelo de trem!

Banho quente

aprender a fazer o café
da manhã sozinha
foi o meu primeiro
ato de desapego
dobrar a colcha de cama
vazia destilava a pele

a gente aprende
a olha pra dentro
quando tudo aqui fora
é confusão, meu peito
é esse redemoinho
envaidecido e
cheio de espanto

talvez o meu único
problema seja amanhecer.

Favas

toco teu peito nu
(som de granada destruindo cidades)
o atrito penúltimo
ferido em farpas
(pele escorrendo sangue, chacina em nós)
invadindo meu ser em sufoco
(manada de elefantes
pisoteando meu corpo)
eu já quase rouco
chamando teu nome
(barulho de rádio chiado
repetido na cozinha)
& você com a voz
brava dizendo que não me ama
(tiro de um calibre 22 rasgando
devagar a carne de um coração penado)
o amor é mesmo
uma morte lenta.

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Ítalo Lima

About Ítalo Lima

Ítalo Lima nasceu em Teresina/PI. Formado em Publicidade e Propaganda e cheio de inquietações na pele. Poeta em estado constante de aflição. Amante confesso da palavra desde a infância, mas foi a partir dos 18 anos que assumiu abertamente o ofício como poeta. Em 2014 criou o projeto no Instagram (@italolimapoesias) onde vende poesia em moldura e até hoje vem curando a solidão através de quadros poéticos. Da solidão ao erotismo, cada verso parece rasgar a pele sem nem sequer pedir licença, inocente, o poeta Ítalo Lima escolheu a poesia como uma forma de retornar ao útero. Autor também da obra "Quando a gente se mata numa poesia", lançado em 2017, na Bienal do livro, no Rio de Janeiro.

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