Sobre brigas e centros de cidades

Sai de casa sem esperar por nada, como sempre saio, um passo após o outro, seguindo os Petit Pavet da calçada, e dando um passo, depois outro, depois outro, com minha namorada do lado. Fomos andar pelo centro da cidade porque ela insistiu muito. Eu odeio o centro da cidade, aquele bando de gente que não tem o que fazer e cria motivos pra sair e andar nesse sol do interior que regaça a pele a cada segundo, sem contar a poluição sonora dos tamancos em movimento, o barulho das sacolas, as pessoas andando e sorrindo, andando e sorrindo, parecem robôs “made in chaina” de 1960 estragados. Fui obrigado a ir porque “ficar deitado o dia todo faz mal”, portanto olha lá eu me crucificando, olha lá eu me camuflando perante toda aquela merda e procurando algo doce pra me dopar. Minha namorada é ciente de que eu odeio esse tipo de coisa, mas a gente costuma ceder vontades sabe?! Senão nenhum relacionamento seria digno de bodas de diamante, então passeávamos olhando as rolinhas se banhar na poça suja de água, o senhorzinho dar comida para as pombas e as mulheres sapateando na calçada uma dança feia e ruim.
Quando chegamos no centrão mesmo avistamos um sorvete de máquina, eu e minha moça compramos dois e fomos sentar em um banco onde tinha uma sombra digna de uma poesia, nos aconchegamos lá e começamos a observar o movimento das pessoas. Estávamos em silencio, o calor estava grande e o sorvete era o que nos restava. Do lado direito havia um palhaço fazendo malabares enquanto as pessoas passavam por ele e entregavam algumas moedas em seu chapéu, eu foquei nos malabares, fiquei olhando aquelas bolas coloridas girarem por cima da cabeça do palhaço enquanto ele fitava a bunda de uma moça que vestia uma calça branca colada no corpo, eu olhei pra minha namorada e a gente sorriu, os palhaços de rua também amam. Essa moça estava com um cara robusto, com aquelas regatas que só escondem o bico do peito, eu pensei: “um absurdo esse cara vestido assim, tem velhinhas na rua” Eles conversavam uma conversa ríspida e em alguns segundos a conversa começou a virar uma discussão, ele começou a pegar em seu braço e a moça começou a falar “me solta, tá me agarrando forte, ai, para, eu não vou pra sua casa” e ele começou a gritar “cala a boca sua vagabunda, quer apanhar aqui no meio de todo mundo cala a boca, para de fazer ceninha!”
Eu percebi que era meu momento e aquele domingo monótono começou a fazer sentido, eu entendi o porquê de existir, em meus vinte oito anos de vida eu jamais havia entrado em uma briga. O comichão começou a sair do meu anus e foi parar em minha espinha, nunca ninguém tinha sido digno de um soco meu, alguns já tentaram, mas não conseguiram tirar minha resiliência, não que essa cena me tirou algo, eu sequer pensava na moça, só precisava experimentar como era bater em alguém e aquele era um motivo justo. Aí então, sem esperar qualquer reação da minha moça me levantei e fui até ele:
– Aê, solta ela mano!
– Sai daqui, vai cuidar da sua vida.
Ele me deu o motivo que eu queria, a cena estava pronta, toda armada, fechei a mão, dilatei minha pupila e soltei um morro na boca do cara, ele se afastou, colocou as duas mãos na minha frente e disse “calma mano, é só um experimento social, tem uma câmera ali” O cara acabou com meu tesão, eu passei de herói a babaca com aquela fala, fiquei com mais raiva dele ainda, fingi que não ouvi e parti pra cima dele de novo. Dei o segundo soco e tentei deitar ele, não consegui, o cara me pediu calma de novo e eu fui pra cima dele e dei o terceiro soco. Ele colocou a mão na boca, saia um pouco de sangue, eu vi ele olhando seu dedo com sangue enquanto o sol estava atrás dando aquele efeito de 3D de cinema, Eu vi o rosto dele mudando de cor e percebi que eu estava mesmo em uma sala de cinema, porque a mão dele parecia um elástico e foi parar na minha cara dois segundos depois.
– Era um experimento social, seu filho da puta – ele me socava, e socava, eu ouvi alguns gritos femininos em volta, pensei que poderia ser minha namorada, não sabia quem era, eu só ouvia um “era pow, um pow, experimento pum, social pá, gritos femininos gritos femininos! Cada palavra era um soco, enquanto eu já estava no chão meu sangue fervilhava em minhas costas e saia pelo meu nariz, eu parecia uma panela de pressão. Comecei a ouvir os mesmos sons em um efeito de reverb, foram ficando mais fundos, escuros até eu não ouvir mais nada.
Quando vim à tona novamente tentei abrir os olhos mas o sol não deixava, meus olhos estavam pesados, fui mexer meu rosto e parecia que dois bi trens tinham passado por cima de mim, minha pele fumegava em êxtase, eu estava estafado moído e feliz, minha felicidade era tanta que eu sorri um sorrisinho de canto de boca que doeu até minha alma, juntei minhas forças e me levantei, tinha algumas pessoas em volta me perguntando se eu estava bem, pedi pra elas saírem de perto e me sentei no fio da calçada com a rua, olhei a direita e lá estava minha namorada, calma, serena e tranquila terminando seu último pedaço de sorvete, ela se levantou, veio até mim e se sentou ao meu lado.
– E aí, tudo bem?
Eu cuspi sangue no chão e disse: “você viu, eu acabei com ele” ela sorriu e disse, “vi sim! vem, vamos pra casa, tem Merthiolate lá, eu cuido de você, meu herói”
RC
Renan Chiaparini

About Renan Chiaparini

Poeta, cronista e romancista. Gostaria de ter vivido a época de folhetins. Participa de discussões sobre cometas, maquinas do tempo e lê manual de instruções para melhor uso de sua maquina de lavar. Tem poemas publicados na Revista CULT da UOL, Mallamargens e está prestes a publicar seu próximo romance "Dentre todas as pessoas, eu prefiro as putas".

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