ROCINANTE – Um espaço para a Tradução: Niels Hav

“Você me pergunta se o tradutor é um dos últimos cavaleiros andantes de nosso tempo. Não, respondo que não. O tradutor se assemelha mais ao cavalo de Quixote, à Rocinante. Aquele que compromete-se com o desafio imaginado pelo cavaleiro, compromete-se com a jornada e seu impacto. O tradutor me parece mais com o franzino cavalo de Dom Quixote.”
(ERRI DE LUCA, no filme “Tradurre” , documentário italiano sobre o ofício dos tradutores)

 

Apresento este espaço com uma citação do escritor, poeta e tradutor italiano Erri de Luca, uma bela descrição da figura do tradutor, que tem por ofício tornar possível ao escritor atravessar o caminho que leva a outro idioma, outra cultura, com perdas e ganhos durante o trajeto, ao fim da jornada o livro enfim chega às mãos do leitor e suas palavras tornam-se parte de uma nova cultura, fazendo assim com que a obra do escritor, nosso admirado cavaleiro andante, ganhe uma nova pátria.

***

Trago a vocês uma estreia, estreia no Brasil, pois ele já publicou em seu país natal 6 livros de poesia e 3 livros de prosa. E já foi traduzido para diversos idiomas.
Estou falando do escritor Niels Hav:

Ele nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma importante voz nórdica da poesia contemporânea. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas. Atualmente vive com sua família em Copenhague. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Em breve o escritor dinamarquês terá seu primeiro lançamento no Brasil, pela editora Penalux. Uma coleção de poemas traduzidos a partir do inglês pelo Matheus Peleteiro e este que vos escreve. Minha segunda parceria com o Matheus no ofício da tradução, a primeira foi em janeiro de 2017, traduzimos o documentário “Charles Bukowski Tapes” que foi lançado no fim dos anos 80 e ainda não possuía legendas em português brasileiro disponíveis em canto nenhum. O Matheus é baiano e um baita escritor, já tem uma porção de livros nas ruas, flanando entre prosa e poesia: “Mundo Cão”(2015; ed. Novo Século), “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (2016; ed. Giostri),  “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (2016; ed. Penalux); “Pro Inferno com Isso” (2017).

Nosso conhecimento do dinamarquês jamais seria suficiente para traduzir um poema diretamente deste idioma, mas graças ao trabalho da dupla Patrick Friesen e P. K. Brask, que realizaram a tradução dos poemas do Niels para a língua inglesa diretamente do dinamarquês, foi possível fazer esta tradução “indireta” da obra poética do Niels. No prefácio que escreveu para a edição brasileira ele afirma: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa.”
Toda tradução tem perdas, isso é uma das poucas verdades universais, e nas traduções indiretas  isso é algo ainda mais latente, mas  tivemos a sorte de 1º: o Niels estar muito vivo e ter conta no Facebook. 2°: ele fala fluentemente o inglês, trocamos emails e ele foi muito solícito, nos ajudou a passar por cima de cada dúvida que tropeçávamos no caminho e clareou nossa mente em alguns pontos do livro.  Sobre a tradução para o inglês, Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês uma espécie de originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que tenha muitas perdas na tradução para o inglês.”

Transcrevo abaixo três poemas ao lado de suas respectivas traduções para o inglês, e no segundo poema está também seu texto em dinamarquês para que vocês vejam como este idioma é “no papel”. Atualmente essa língua possui somente cerca de 6 milhões de falantes nativos. Te convido a ouvir a pronúncia em dinamarquês do poema “Em defesa dos poetas” aos 8:36′ do vídeo que está no fim da página, acompanhando a leitura do texto em sua língua original. O vídeo é um registro  da participação do Niels no 41° Festival do livro de Buenos Aires, que aconteceu em abril de 2015. Todos os poemas lidos estarão em nossa edição brasileira intitulada: “A Alma Dança em Seu Berço” (Editora Penalux). Com previsão de lançamento para julho de 2018!

Capa da edição brasileira

 

VISITA DO MEU PAI (Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!

VISIT FROM MY FATHER (Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

***

ENCORAJAMENTO  (Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

Não é um pensamento edificante
que dentro de algumas décadas nós
e toda essa época confusa
com seus presidentes cínicos,
argumentos desgastados,
apresentadores de TV piegas, jornalistas apáticos,
e o regozijante coral capitalomaníaco
sumiremos?            Para sempre.
Nós vamos desaparecer.
Eles vão desaparecer.
Eu vou desaparecer.
Você vai desaparecer.
Tudo vai desaparecer.
Hurrah!

ENCOURAGEMENT (Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Isn’t it an uplifting thought
that in a few decades we
and this whole confused epoch
with its retarded presidents,
worn-out arguments,
mawkish TV hosts, dim journalists,
and the cepitalustic jubilant choir
will be gone?           For all time.
We will disappear.
They will disappear.
I will disappear.
You will disappear.
It will all disappear.
Hurrah!

***

EM DEFESA DOS POETAS  (Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

IN DEFENSE OF POETS (Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by poetry.

TIL DIGTERNES FORSVAR  (original em dinamarquês)

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

 

(ative a legenda no canto inferior direito do vídeo)​

Edivaldo Ferreira

About Edivaldo Ferreira

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor (inglês-português), em 2016 publicou seu primeiro livro "Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito" (poesia) pela BAR Editora. Em 2018 participou da antologia "Cidade Sombria" uma coleção de contos de literatura noir ambientados na cidade de Goiânia - GO.

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