Rinoceronte

 

Melissa tentava dormir quando olhou e viu o rinoceronte. Tomou um susto que lhe abriu a boca, logo ficou quieta, era apenas um rinoceronte no meio do quarto. Dormiu e teve sonhos tranquilos. Acordou e não era uma barata. Sentiu um certo alívio.

A porta foi arrancada. Talvez o rinoceronte não a tenha conseguido abrir. Não é fácil girar a maçaneta sem um polegar. Polegares fazem toda diferença quando se quer abrir uma porta, não é mesmo?

A manhã é sempre a hora mais preguiçosa e a de maior apego. Difícil encontrar quem queira deixar a cama, o aconchego aquecido do colchão, travesseiro e lençol. Escuta barulho na cozinha, cheiro de café e pão fresco. Procura as havaianas postas rente a cama. Veste uma blusa antiga, verde com furos e propaganda de floricultura, dessas com nome nada original. Primeiros passos cambaleantes, buscam recobrar o equilíbrio e a altivez cotidiana.

O rinoceronte está na cozinha, prepara o café e vigia a leiteira para não transbordar. Ele a saúda com um olhar breve e um leve aceno de cabeça. Senta-se à mesa e espera que tudo esteja pronto. Café pingado, ovos mexidos, pão francês.

Aquele é um dia decisivo, Melissa precisa resolver entre Bahia e Paraíba, fazer a escolha que a divide e aflige. Não lembra a data exata em que recebeu o ultimato, mas segue em guerra, o cenário apocalíptico posto pela dúvida. Um coração entre lá e cá. Tem seus medos, possibilidades de arrependimento, de lançar numa só e insegura escolha todo o projeto de vida. Sabe que o futuro não deveria ser uma preocupação. Por enquanto, tudo é potencial. Teme ser uma frustração, nem tanto por si, mas por todos os abutres à espreita.

Precisa correr, pegar ônibus, ir para aula. A cabeça cheia de aranhas fiando e fiando e fiando. Segue e nem percebe o rinoceronte sentado no banco ao lado. Outro dirige e alguns limpam o chão nos corredores da universidade.

Falta de ar, um leve desconforto, algo próximo da tontura, mexe no caderno e confere o horário. O professor deve aparecer logo, não costuma atrasar. O rinoceronte adentra no recinto e rabisca algo na lousa. Não consegue compreender, mas anota e escreve um pequeno lembrete, algo para breve. Tenta e tenta e tenta, mas não consegue concentrar-se. Pensa apenas na decisão que deve tomar. E se decidir errado? Se estiver desperdiçando um futuro melhor e menos incerto? Mas há futuro certo?

A manhã vai a desenhar bonecas nas últimas folhas do caderno, tentativa de acalmar-se e esquecer o peso em decidir. Deixa a sala e, correndo, volta para casa. Imprensa-me para decidir em seu lugar. Recuso. Já diria algum guru da nova era ou um desses sermões dominicais, a ninguém cabe cuidar do destino de outrem.

Rumina dias e dias, decide. Guarda para si até o último momento, forçada pronuncia-se.  Houve quem a chamasse burra, ingrata, idiota. Houve quem sentisse alívio. Todos comungando a mesma incerteza.

Dormia ao perceber que há um rinoceronte sob a coberta. Ela se mexe, ele continua lá. Vai ao banheiro. Um vulto a assusta no espelho manchado pela escuridão. Acende a luz, olha atenta, não surpresa, a ausência da própria imagem. Ninguém ali, exceto o rinoceronte.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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