Renda-se ao poder do Glitter

“Quem precisa de literatura quando se tem 80% de desconto na Daslu?”

Glitter, romance de Bruno Ribeiro, é a melhor temporada de America’s Next Top Model. Tal qual o reality, aqui temos um grupo de modelos confinadas em um shopping center para um último desfile, o La Poésie Vivant, sob a promessa de terem seus nomes para sempre no panteão da moda. O projeto nasce na mente do revolucionário e prodigioso estilista, Guilherme de Boaventura, e é executado com o auxílio do tóxico, Viddi Santhiago, que, ao melhor estilo filho da puta, humilha, escraviza, ironiza tudo e todos no fazer acontecer do mundo fashion.

Para garantir que as modelos cumpram o seu papel, eles contam com a über model, Eva, criada pelos pais gays para ser a maior modelo do mundo, que ocupa o espaço da sacerdotisa capaz de agregar, consolar e converter a mais enlouquecida das modelos em fiéis fervorosas de seu culto ao glitter. Gradativamente, torna-se deusa, ainda que também humana. Eva atrai para si e em torno de si a adoração, devoção e fidelidade de cada uma das meninas desajustadas e desequilibradas pelo ditames cruéis da indústria da moda.

Vários elementos do religioso encontram-se presentes: a cegueira do fanatismo, a revolta e o desequilíbrio que forjam a esperança, a esperança encarnada na pessoa de Eva, o milagre revelado frente ao desespero, o poder que desfaz resistências, alimenta exércitos, deflagra guerras. Temos, inclusive, o séquito de soldados da fé, obreiros dedicados e anônimos revelados sob a alcunha de estagiários. Sem falar na pomposidade dos templos, tudo se passa dentro de um shopping center. Mesmo a plateia, apesar de estarrecida, mantém-se na postura espectadora, consumindo, consumindo e consumindo até a morte, tal qual Sísifo preso ao seu castigo eterno.

Apenas Lana Almeida, a sofrida Cinderela às avessas, resiste ao poder de sedução da novíssima fé. Há nela certa inocência que não combina com o mundo pela qual foi, ao mesmo tempo, seduzida e empurrada. Se todas as modelos olham para o futuro, para a glória do porvir, Lana permanece com os olhos no passado, na vida simples que poderia ter tido. É o anonimato que lhe foi negado a sua grande esperança de felicidade, porém ninguém espera receber daquilo que passou. E quando toda a esperança, esse “monstro que devoramos para continuar andando“,  está depositada no que poderia ter sido ou tido, nada resta além de melancolia. Trancafiada num quarto branco, amarada a uma cruz e ajoelhada em fervorosa oração, Lana há de sucumbir a única entidade capaz de socorrê-la.

A narrativa firmada nas vozes de Viddi, Eva e Lana montam um quadro denso e completo. Enquanto o primeiro nos revela os bastidores e o planejamento, Eva nos revela a biografia das modelos. Lana traz um olhar pueril, desconfiado e perturbado ante tudo o que vê, ouve e experimenta. Assim, vamos do decadente ao apoteótico, do conhecimento à completa ignorância. Ninguém sabe o que se passa. Desconhecem partes do plano e passam de executores a objetos e vice-versa. Nada é fixo, permanente ou eterno. Tudo é efêmero. Apenas mais uma tendência.

Não se iluda, a passarela de Glitter revela algo mais, como declara Lana: “Todos eram defuntos que andavam. Ninguém vivia de verdade, todos arrastavam seus corpos em decomposição rumo ao trabalho, rumo as suas camas, rumo à boceta da esposa dona de casa. Todos eram ilusões, fábricas de desejos, matutos criados pela televisão, filhos da mídia, inúteis.” É sobre nós que eles falam. Sobre nossas vidas conformadas pela mediocridade da rotina, sedentos de atenção em postagens lacradoras no facebook, em pratos goumertizados no instagram, na felicidade vazia das farras e shows capturados pelo ecrã de um celular.

E a gente segue lacrando, chocando, sem saber que “chocar é uma arma ultrapassada de chamar atenção“. Afinal, “o choque passa depois de algumas semanas” e sobramos nós, os tolos espectadores boquiabertos. Nós, os espetáculos ambulantes, as celebridades instantâneas em busca de alguns poucos segundos de eternidade. Nós, os pobres fiéis rendidos ao poder do glitter.

P. S.: Cabe mencionar que Glitter foi pré-selecionado ao Prêmio Sesc de Literatura 2016 e finalista da 1° edição do Prêmio Kindle.

CRÉDITOS
Livro: Glitter
Autor: Bruno Ribeiro
Editora: Moinhos
Ano de lançamento: 2018

 

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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