Pombocetas e rock and roll

Jaqueta, tênis de fábrica, camiseta simples e eu revestido por tudo isso andando pela noite aqui na minha cidade, minhas mãos estavam no bolso se esfregando em resto de farelos de alguma coisa. A gola alta cortava um pouco do vento que batia na minha boca já rachada. Era frio aqui no interior. Dificilmente faz frio no interior do sudeste, uns três ou quatro dias do inverno ele resolve aparecer e ai é aquele estardalhaço, todas as cortinas estão fechadas, as pessoas se mostram pouco, as mulheres não saem mais com suas mini saias e as golas V se transformam em gola alta, em cachecol. No inverno do interior todo mundo é um músico desconhecido. Eu caminhava ladeira abaixo, ereto com os olhos para cima e tentava me esquentar vendo as cores das fachadas das lojas, uns vermelhos menstruação, amarelos milho, roxo, purpura,as nuances monocromáticas entravam em meu corpo pelo vento frio. e eu ia tentando flagrar as cores que estavam cada vez mais longe, as cores que meus olhos iam construindo aos poucos. Ao decorrer da caminhada as imagens iriam se formando. Então eu vi algo em uma fachada grande que se parecia com uma pomba branca com traços contornados em vermelho. Eu pisquei, tentei colocar minha visão em ordem e após a piscada enxerguei uma boceta enorme linda no peito da pomba. Deixei os olhos semi fechados para diminuir a luminosidade e não adiantou, a boceta ficou mais nítida ainda. Ela tinha os pequenos lábios enrugadinhos que parecia encostar seu rosto nos grandes lábios, era uma bela e clássica boceta, com sardas nas laterais, resolvi não piscar meus olhos mais pois se eu os piscasse eu a perderia na imensidão das imagens que eu já tinha visto na minha vida, e então eu focava e andava mais rápido, meus olhos começaram a congelar, o frio não deixava eles lacrimejarem, minha pupila dilatava mais e mais cada vez que eu chegava perto da pomboceta, comecei a correr, era uma pura e imensidão dor, eram mini faquinhas geladas que esfaqueavam meus olhos, mas eu aguentei, aguentei até onde um ser humano poderia aguentar com os olhos abertos, até que cheguei e consegui por alguns segundos olhar aquela pomboceta de perto, realmente ela era linda, nada muito diferente do usual, mas estáva tudo em seu devido lugar. A admirei por três segundos e fechei meus olhos, coloquei meus dedos sobre eles, a imagem do contorno da boceta ainda estava marcada pelo meu cérebro, era uma boceta escura com chumaços coloridos, comecei a lacrimejar e então vi a pomboceta se banhando naquele mar de água salgada, e sendo levada pela corrente de volta ao oceano, todo belo animal deveria viver livre em seu habitat natural. E ela se desvaneceneu perante água de meus olhos e sumiu no mar da escuridão de meus neurônios. Abri meus olhos novamente e olhei para fachada, eu estava em frente à igreja universal do reino de Deus, e então me dei conta que os milagres daquele local não eram falácias das pessoas do fã clube de Deus, aquele era realmente um lugar santo.
Meus sentidos foram voltando, eu fui saindo do transe e comecei a perceber que estava havendo um culto diferente por ali, tinham sons de guitarra, limpos, serenos com notas bem construídas e o baixo com um delay estratosférico, olhei para o corredor e a igreja estava repleta de pessoas de macacão preto com caveiras nas costas, fazendo um chifrinho com a mão levantada, olhei a minha direita e a lousa da igreja estava pintada em um giz branco dizendo “culto gospel, Rock and roll progressivo”. A universal não me deu medo aquele dia, eu me senti bem, e meus pés começaram a se movimentar junto com meu corpo, eu tenho um requebrado quebrado, quase seco, eu danço como um viking, senti necessidade de uma cerveja, mas não tinha nada no local. Não aguentei, me adentrei e o som inundou meus ouvidos. Tinham uns 5 back vocals mulheres que faziam um lírico em voz aguda, enquanto o vocal principal falava “venha nos inundar com seu espirito santo senhor”, em um gutural. A música tinha seis sete partes e em cada parte o cantor tinha uma técnica vocal diferente, eu não via música boa assim fazia tempo, voltei a colocar as mãos em meu bolso e apertei o farelo com força, olhei para o lado e havia um ser humano normal ali, com vestimentas básicas, ele usava um branco paz, me senti confortável fui até ele e perguntei, “qual o nome da banda?” Ele disse chegando perto em meus ouvidos “Pinky god! Os caras são bons, é a nova MGB” Perguntei o que era MGB e ele disse “Música Gospel Brasileira” Dei uma risadinha por dentro enquanto balançava meu corpo ao som daqueles caras, mas eu já sabia, só se faz bons metaleiros dentro da igreja, fora dela só tem músicos coxinhas, músicos rissoles e gente de mente fechada. Eu tive orgulho de Deus aquele dia, puta cara bondoso pra caralho, cada tchananananana em dó facomsétima misustenido menor eu orava pra ele, era um tchanananana e um “amem senhor” tchananana “te louvo senhor” tchananana “o senhor é rock and rolll, e se o senhor é Rock and Roll eu Rock ai sou” tchanananana “pomboceta é rock and roll” tchananananana “pomboceta no rock é soul”, ah! Como é fácil se converter nos dias de hoje, não é mesmo?
RC

Renan Chiaparini

About Renan Chiaparini

Poeta, cronista e romancista. Gostaria de ter vivido a época de folhetins. Participa de discussões sobre cometas, maquinas do tempo e lê manual de instruções para melhor uso de sua maquina de lavar. Tem poemas publicados na Revista CULT da UOL, Mallamargens e está prestes a publicar seu próximo romance "Dentre todas as pessoas, eu prefiro as putas".

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