Poesia pra saudade passar depressa

Quando você partiu
eu fiz compressas de gelo
Para aliviar a dor
da saudade na pele
Você escancarou ao mundo
o meu medo de abismo
E o meu choro você
viu como um charme
A saudade não é digerível
E o apetite agradável
foi meu melhor fingimento
Todo mundo na vizinhança
acreditava no meu sorriso
Só não meu travesseiro
Que suportava todos os meus gritos
Eu te doaria meus órgãos
Só pra poder ter minha carne
Viva pulsando dentro de você
A eternidade pouco sabe de nós dois
Também prefiro que ninguém saiba
Mas te expor aqui em versos é
a melhor forma de esquecer nós dois
Eu dormia sem cobertas só
pra não te ver passando frio
E você sempre acordava sorrindo
de um sonho em que eu não pertencia
A dor da saudade corta a gente
E eu estanquei calado
o sangramento da agonia
Teu abraço frouxo
me desfez em lágrimas
Eu não acreditei quando
você saiu de casa
Mas eu suportei a dor
do dedo preso na porta
Só pra não te ver
partir mais uma vez
Teu cheiro impregnou
em todos os objetos
Meu tato tudo aliciava
procurando tua pele
Eu engoli a saudade a seco
quanto te vi passar
E menti com os lábios
trêmulos que já te esqueci
Meu corpo desidratado
ninguém mais reconhecia
Perdi meu sobrenome, o apetite,
o brilho nos olhos e um tanto de sangue
Eu te escrevi uma carta
com um lápis sem ponta
Pra no final você me devolver
dizendo que foi engano
Saudade também passa
e eu segui com meu colar de alho
Na superstição cabalística que você

foi o pior dos meus encostos.

Ítalo Lima

Ítalo Lima

About Ítalo Lima

Ítalo Lima nasceu em Teresina/PI. Formado em Publicidade e Propaganda e cheio de inquietações na pele. Poeta em estado constante de aflição. Amante confesso da palavra desde a infância, mas foi a partir dos 18 anos que assumiu abertamente o ofício como poeta. Em 2014 criou o projeto no Instagram (@italolimapoesias) onde vende poesia em moldura e até hoje vem curando a solidão através de quadros poéticos. Da solidão ao erotismo, cada verso parece rasgar a pele sem nem sequer pedir licença, inocente, o poeta Ítalo Lima escolheu a poesia como uma forma de retornar ao útero. Autor também da obra "Quando a gente se mata numa poesia", lançado em 2017, na Bienal do livro, no Rio de Janeiro.

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