Parque Lage*

*Um conto de Marcos Alexandre Faber

 

Um homem evoluído deve ser, obrigatoriamente, um esteta.

Anton Tchekhov

 

Quem coleciona alguma coisa sabe o que é compulsão. Um objeto qualquer pode se tornar fonte de desejo. Isso não tem nada a ver com os chamados shopaholics ou consumidores compulsivos, que não conseguem resistir à tentação de comprar, porque não é uma obsessão pela compra em si, mas pelo objeto.

A sensação de prazer que temos quando conseguimos o objeto de cobiça é como se o nosso corpo fosse movido a dopamina e isso nos motiva a metas mais ambiciosas.

Geralmente o colecionador começa, na infância, com algo genérico como carrinhos, lápis ou camisetas e, depois, vai ficando especializado: carrinhos azuis, lápis fora de série da Faber-Castell, camisetas retrô.

Há colecionadores de tudo: moedas, selos, obras de arte, objetos antigos, armas brancas, etc. Alguns tocam à bizarrice: latas com ferrugem, bonecas infláveis, caudas de sereias…

A bibliofilia, mais do que o número de exemplares, tem a ver com o amor devotado aos livros, senão qualquer burguês que tivesse uma estante na sala, mesmo sem lê-los, seria um bibliófilo.

A minha é uma derivação dessa, uma subespecialidade. Um pouco estranha, é verdade, porque coleciono a mim mesmo, através dos outros.

Eu sou um escritor carioca e tenho cerca de uma dezena livros publicados. A maioria, de poemas, dois romances e um de contos. Quase todos, edição de autor, ou por pequenas editoras, o que fez com que as tiragens nunca ultrapassassem os 500 exemplares.

Foi um dia qualquer, vinha divagando pela Rua do Catete, quando parei, como sempre faço, em um das centenas de sebos do Rio de Janeiro.  Pela primeira vez, vi uma obra minha nas prateleiras do alfarrabista.

Eu era um escritor iniciante e não havia esses catálogos virtuais que hoje facilitam o encontro de qualquer obra. Estava autografado. O seu estado de conservação não era dos melhores, como se tivesse sido guardado num lugar com umidade e sem luz. Tive pena do livro. Foi quase instintivo, comprei na hora, como se estivesse fazendo um processo de salvação daquele objeto. Por zelo mesmo.

A segunda vez foi na própria rua, perto da Cinelândia. O livro estava ali ao sol, exposto às partículas de compostos da poluição do trânsito e a todas as intempéries do clima da Cidade de São Sebastião. Outra vez comprei.

Mas foi a terceira experiência a decisiva na minha ambição de colecionador de mim mesmo. O livro estava dedicado, mas não por mim. Era um presente de alguém que parecia apaixonada. O que me encantou depois foi ver que ele tinha sido realmente lido, manuseado.

Estava todo anotado, como se tivessem partilhado a leitura. Os indícios e a minha imaginação me levaram a ver dois jovens no Parque Laje.

Enamorados a ler poemas deitados à relva com vista para o Corcovado, naquele espaço que um dia fora engenho de açúcar, e que na metade do século XIX o paisagista inglês, John Tyndale, concebeu como projeto de um jardim romântico europeu.

Imaginei-a correndo com o meu livro na mão, por entre os portais daquele palácio. Ali perto, bem perto da sua piscina, onde já não se nada, mas que tem a função de composição, de fruição, como uma tela de arte.

Pude ver a luz do sol a cruzar o jorro de água do chafariz, e mesmo algumas gotas caindo sobre o seu cabelo ruivo.  E depois de horas, ver os seus pés brancos, descalços como prêmio final por uma nova trilha aberta entre as palmeiras imperiais.

Tudo ali por uma fresta do livro.  Pude ver, no final, o volume esquecido num daqueles bancos enquanto se beijavam.

Mas se o livro foi tão importante para os dois, por que estava à venda no sebo?

Hoje tenho cerca de 30 livros meus comprados nas ruas e nos alfarrabistas. Alguns estão marcados, comentados e com dedicatórias, como um que já pertenceu a um amigo poeta. Outros não trazem quaisquer indícios de quem foi o seu possuidor.

Uns estão novos em folha, com aquele cheiro de livro que saiu da prensa. Outros, semelhantes a certos animais que compramos mas pelos quais perdemos o interesse, parecem ter sido abandonados no porão e depois largados na rua.

Um, eu adquiri aqui embaixo do meu prédio, no Botafogo, o outro mandei buscar numa Librería de Madrid por vinte euros, mais de 17,82 da taxa de envio.

Estão todos queridos e bem tratados, mais do que os outros meus livros que nunca deixaram a casa.

 


Marcos Alexandre Faber é músico, poeta e ensaísta. Com O lampejo do vagalume, pela Editora da UFPE, inicia a sua saga pela ficção. Contato: marcosalexandrefaber@hotmail.com.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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