O sentido de humanidade e a compreensão da vida, segundo Vincent Van Gogh

Existe algo mais maravilhoso e ao mesmo tempo mais terrível do que viver? Viver é a combinação entre o belo e o feio, angústia e alívio. Talvez não exista um ser humano que sofra menos com essa combinação, mas, certamente há os que têm mais dificuldades em lidar com ela. Mas, por mais estranho que pareça, essa dificuldade, às vezes faz com que viver seja ainda mais intenso, provocando as piores dores, mas ao mesmo tempo os maiores prazeres.

Vincent Van Gogh talvez tenha sido uma das pessoas mais intensas de que se tem registro. Trinta e sete anos vivendo atormentado por distúrbios mentais, tentativas de se encontrar no mundo e sentimentos genuínos de amor e altruísmo. Van Gogh por muitas vezes é difícil de compreender, tanto que na época em que viveu, foi taxado de louco. Por vezes, biógrafos, estudantes e apreciadores de arte tentaram traduzir os sentimentos expressos na obra do artista. Mas, talvez a intensidade de Van Gogh não precise ser entendida, e sim contada.

Loving Vincent (Polônia/Reino Unido, 2017) é definitivamente o filme mais tocante feito para tratar da vida deste homem. É um retrato singelo, que evita a tentação fácil de contar a história como se Vincent fosse um sujeito do qual se devesse sentir pena. Com certeza não. É como se próprio artista contasse sua vida através de suas pinturas, e das cartas endereçadas ao irmão Theo. As telas simplesmente ganham vida no primeiro filme feito à tinta óleo do mundo, com um trabalho cuidadoso.

Temperamento tempestuoso, grande afeto, solidão, loucura, genialidade. Quem foi Van Gogh? Os personagens de suas pinturas contam seus diferentes pontos de vista, a partir de uma viagem que segue não só pelos seus destinos, como também pela intensidade de seus sentimentos.

O filme foi feito com atuações reais, editadas com pinturas de 125 pintores que replicaram os quadros do pintor holandês, fazendo acontecer a animação. É simplesmente impressionante, ou, impressionista como a obra de Van Gogh. Uma peça artística que não tenta traduzir, mas sim retratar os sentimentos nas obras. Se arte é expressão, por que não deixar o próprio artista se expressar e se fazer entender? Vincent certamente não era perfeito, mas, suas obras possuem uma carga de humanidade e compreensão da vida, raramente encontrada em qualquer lugar. O neerlandês talvez não tivesse consciência, mas entendia o que é intensidade, sabia viver plenamente.

Os diretores e coordenadores do projeto são o casal Hugh Welchman e Dorota Kobiela – Animador e pintora que levaram, ao todo, seis anos para sua conclusão , entre recrutamento de artistas e busca de financiamento. O resultado foi condizente com o esforço, já reconhecido mundialmente.

Vincent Van Gogh só pode ser retratado da forma intensa com que viveu e fez sua arte. Ao mesmo tempo que teve muitas dificuldades, ‘nada neste mundo passava despercebido ao seu olhar’, e por isso, essa homenagem se faz tão importante.

Isabella Lustosa

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Paulistana de nascimento e nordestina de coração. Possui duas improváveis almas gêmeas: Paçoca e Al Pacino.

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2 Comments on “O sentido de humanidade e a compreensão da vida, segundo Vincent Van Gogh”

  1. Van Gogh sentiu o sentir e não se importou e muito menos se esforçou para racionaliza-lo, por isso ele se sentia deslocado, por isso o taxavam de louco. Ninguém conseguiu compreender alguém que sente e não tenta dar um nome. Uma pessoa extraordinária e muito intensa. O texto está ótimo, amei muito! <3

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