O espinho da Rosa

 

Posso te dar um livro de presente ao invés de te pagar? Às vezes o dinheiro é amargo pra mim, a literatura o adoça e, além disso, os romances de Rosa Montero valem muito mais que meros tostões. Te daria o melhor livro que li nos últimos anos.
Estou deixando Ubatuba amanhã, de ônibus, “maior rolê”. Detesto ser prole, por mais que a consciência compense o percurso e o cansaço. O que me consola é que o trabalho sistemático, tão fundamental pra minha classe, não me encanta tanto quanto encanta alguns, esse é um dos privilégios que me liberta e, ao mesmo tempo, me assola.
Foi legal ter te visto. Não matei saudades, imagino que muito do que saúdo já não existe mais. Não há espaço numa vida para substituir o que existiu, mas há a sensatez de enxergar primeiro o que agora é, pra depois sorrir de canto e viver a vida guardando o lúdico do que um dia foi.
Até hoje não compreendo o que você viu em mim, quem procuraria tamanha confusão?
Em Março começam minhas aulas, soube que você quer trocar de Universidade… te desejo muita liberdade, muito amor e muito carinho de quem você quer bem. Desejo que você aprenda a valorizar o afeto, seu sorriso não é nada perto da beleza que um dia eu vi aí dentro.
Troco de número essa semana, acho sábio não te procurar mais. Por vezes me coloco no seu lugar e me vejo por fora, mas sob sua ótica me pareço com uma menina da qual não quero parecer, nem de longe, muito menos vista pelos seus olhos. E tem ainda a sensação de estranheza, a superfície em que você se deleita é muito estranha pra mim, prefiro as profundezas mais úmidas.
É hora de encarar a aspereza dos amores que eu invento, é hora de escrever romances ao invés de protagoniza-los. Nasci mesmo pra isso, né? Bendita escrita, mãe de uma legião de órfãos. Preciso me juntar aos meus irmãos.
Tomara que você leia meus livros, tomara que me entenda quando te escrevo, tomara que você consiga sentir como o ato de escrever faz parte de mim, que você entenda como a escrita tem a ver comigo – que antes de ser o que eu quero te dizer, ela é o que me acalenta. Por vezes nem é preciso dizer, escrever sacia por si só a ânsia de criar, entender, desenvolver, de por pra fora. Autores são escravos da linguagem, mas isso é muito ambíguo: ao mesmo tempo em que é muito bom poder te escrever, é terrivel a certeza da sua incompreensão, mesmo que inconsciente. Escritoras, “loucas”, dramaticas demais; eu entendo.
Que a vida floresça pra nós dois.
Sempre ao seu dispor, à espera de sua graça.

 

Jéssica Xavier

About Jéssica Xavier

Terraquea, latinoamericana, brasileira, paulista e joseense. Filha, irmã e tia. Amiga, amante e filósofa de final de semana.

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