O demônio da crônica

Foi em meados da segunda metade dos anos 1990 que me deparei com a crônica. Descobri os livros do Luís Fernando Veríssimo (aqueles com capas coloridas e caricatura do autor). Além disso, lembro que meu pai circulava (e chegava a recortar algumas) crônicas do Crispim em um dos jornais paraibanos (não lembro se O Norte ou o Correio da Paraíba).

Claro, já tinha tido algum contato com ela nos livros de Literatura. Quem aqui nunca leu uma crônica do Drummond ou do Sabino na sala de aula? Ah, e os primeiros textos que publiquei eram crônicas (para jornal do colégio Instituto Moderno, na paraibana Mamanguape e, mais tarde, numa coletânea promovida pelo famoso Sebo Cultural). Então, por que a crônica me parece uma célebre desconhecida?

Confesso ter certa resistência à crônica. Posso até ouvir daqui suas palavras de reprovação ou mesmo intuir as cabeças acenando negativamente. Assumo minha total vergonha e responsabilidade. E resisti aos Demônios Domésticos, de Tiago Germano, mas fui vencido pela simpatia e admiração que gradativamente passei a nutrir pelo autor, em especial, pela lucidez (e humor) com que se coloca e defende pontos de vistas e opiniões. Tiago é daqueles que encarna o verso “verás que um filho teu não foge à luta”. Não arreda de uma boa discussão, feita com a elegância incomum (nas redes sociais virtuais) de colocar questionamentos e argumentos. Por vezes, me peguei repensando as minhas posições e posturas. Fiquei curioso e cedi aos seus demônios.

Daí o cabra pega o livro e diz “vamos lá”. Abre o danado e dá de cara com um prefácio… Minto, dá de cara com “o” prefácio de Braulio Tavares, um aula espetacular sobre a crônica (e o conto). Deveria ser eleito como leitura obrigatória em cursos de Escrita Criativa e em aulas de Literatura.  O mestre assevera que a crônica é fluida, lida com o cotidiano, com as amenidades e, por isso, segue despretensiosa. E Tiago, sem rodeios, declara-se “jornalista de amenidades”.

As crônicas que abarcam a inocência da infância, esse descobrir de um novo mundo, revelam as tentativas de entender a morte, as ausências, as lógicas do sagrado e do sacralizado. Em Óculos Ray-Ban a admiração do filho ao pai, o desejo de ser e estar com ele, revelam que as distâncias pode ser profundas mesmo quando estamos bem perto. A melancolia com que narra induz a dificuldade em relacionar-se com o pai, muito mais uma figura idealizada que real.

E a melancolia parece pontuar outras crônicas desse arco da infância, como em Maíra coleciona sorrisos. Há uma delicadeza em como tudo é posto, um olhar fraterno do narrador, um cuidado protetor, como quem enxerga na timidez, no modo herdado com que Maíra observa e coleciona sorrisos, que se desfaz e é recompensado caso ela encontre o próprio sorriso. O narrador está à espreita, desejoso de que ela seja feliz. Deixe-me dizer, é sublime e, ao mesmo tempo, escapista o modo como tudo é narrado, quase como se não se soubesse a medida certa entre o se expor e o esconder. E se assiste razão ao prefácio (e “a crônica segue o perfil de quem a escreve”), posso entender perfeitamente a posição do narrador (e do autor?).

Contudo, há humor por todos os lados. Não aquele escrachado, cheio de piadinhas e apelos aos estereótipos. Tiago expõe as pequenas indiscrições. Rimos por identificação. Como não lembrar da dor de barriga a bordo do ônibus da Viação Rio Tinto lotado, cujo banheiro se encontrava interditado, e eu gritando em desespero pelo corredor estreito e apinhado de gente rumo ao banheiro da rodoviária de João Pessoa, ao ler Quando o assunto é assento? E quem não lembra das lendárias comunidades do Orkut ao ler a crônica com o mesmo nome da rede social?

E há amor no menino que olha o pai, no companheiro que se deslumbra com o modo como a amada devora uma paçoca (em Comendo paçoca), no poético olhar de Parênteses, ao ofício da escrita (como em A crônica que jamais escreverei e nas crônicas dedicadas a F. de Morais), aos livros (como em O livro engaiolado), e, sobretudo, as pessoas quer anônimas, quer conhecidas.

Tiago revela seus demônios à medida em que os nossos também se revelam. E acabamos por descobri que inferno está bem mais perto do que se acredita.

 

CRÉDITOS
Livro: Demônios Domésticos
Autor: Tiago Germano
Editora: Le Chien
Ano de lançamento: 2017
Foto: Divulgação - Livraria Taverna

 

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

View all posts by Ivandro Menezes →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *