O Blues e as Canções de Cadeia nas Prisões dos EUA em 1930

Antigamente, muito antigamente – da década de 60 pra trás – eram comuns os campos de trabalho nas prisões estadunidenses. O preso trocava um dia de trabalho por alimento, colchões, e sanidade mental, dentre outras coisas. Como era um trampo pesado e repetitivo, a música atuava como um bálsamo.  Geralmente cortavam árvores, abriam estradas e ferrovias, preparavam campos para plantio, etc. Assim, conforme as enxadas, rastelos e machados cortavam o ar rumo a terra úmida, um ritmo nascia. Tinha inclusive uma questão de hierarquia: o líder do grupo gritava os versos e os outros seguiam repetindo em coro.  Assim, as prisões e reformatórios agrícolas deram início a uma vertente que hoje conhecemos como Jailhouse Negro Blues ou Negro Prison Songs.

Bom, não é atoa esse “Negro” no nome dessa vertente. Sabemos um pouco à respeito do plano de fundo social disso, porém esse é outro assunto e fica pra um outro post. Enfim, Alan Lomax foi um musicista, folclorista e etnomusicologista norte-americado.  E esse cara tem bastante a ver com o que eu vou dizer adiante – Em 1933 Alan Lomax começou a registrar essas canções em cadeias da Virginia, Mississippi e Florida e também da prisão agrícola feminina em Parchman, de onde hoje resta apenas o registro de belíssimos blues cantados por mulheres. Em 1944 as gravações de Lomax tornaram-se um projeto e hoje você pode escutar os álbuns de Prison Negro Songs no youtube ou spotfy.

Em sua maioria as canções estão inseridas na vertente Soul, Blues and Spirituals, como lamentos do cárcere – ou são Work Songs. Quando comecei a escutar com cautela e a realmente curtir esse tipo de blues raíz, três delas fizeram muito minha cabeça: “Rosie”, “Midnight Special” e “Early in the Moarnin'”. Assim, eu gostaria de falar sobre 3 canções em especial.

Rosie

É uma canção de trabalho do folclore norte-americano. Um folk raíz de ritmo importado da África que passa uma força e uma espiritualidade incrível.  Em entrevista, Lomax disse: “Essas canções pertencem a uma tradição musical vinda da África e americanizadas nas margens do rio Mississippi e carregam uma história bonita e trágica. Essas canções nos contam a história dos negros escravos, das gangues nas prisões e campos agrícolas, das leis da cadeia e campos de trabalho. Canções como Rosie eram usadas para coordenar times enormes de trabalhadores, em sua maioria compostos por homens perigosos, assassinos, traficantes ou almas simplesmente socialmente massacradas. Como canções de escravo essas músicas ajudavam os presos a manter o foco, a sanidade e, quem sabe, a esperança” – Rosie foi gravada por Lomax em 1970 no campo de trabalho na prisão estadual do Mississippi.

Midnight Special

foi registrada por Lomax no que chama-se “versão original” na prisão estadual de Sugar Land. Essa canção logo ganhou simpatia de caras grandes. O primeiro a gravar (de quem acho a melhor versão) foi LeadBelly, depois vieram Creedance, Sonny Terry, Red Bone, etc. É uma canção simples mas que chamou minha atenção porque fiquei pensando no que diabos era o tal do “Midnight Special” citado tantas vezes na música. Lá estava o refrão “deixe o meia noite especial lançar seu brilho sobre mim”. Ao ler a estória saquei a parada: Midnight Special era o ultimo trem que passava na linha férrea perto da prisão. O trem passava às 00:00 horas com os faróis acesos iluminando por um segundo a cela dos presos. Então saquei: era uma canção sobre liberdade, uma puta e doce canção sobre liberdade.

Early in the Moarnin’

O cara que você escuta liderando os versos dessa música foi um prisioneiro de 22 anos gravado por Lomax também na prisão do Mississippi. O garoto disse que uma música não podia ficar fora do disco e pediu que Lomax voltasse no outro dia para grava-la. O dia foi longo e você consegue escutar o garoto claramente exausto enquanto canta. O próprio título da música já entrega do que se trata.

Não tenho um gran finale a fazer, quanto menos alguma lição de moral pra dar no fim desse post. À quem interessar, existe um documentário sobre Lomax e suas gravações, bem como a cultural prisional da época nesses campos de trabalho.  Tirem vossas próprias conclusões.

Felippe Regazio

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