O Berro do Bode

“Ela vem com o canto das cigarras, meu bem. Quando as bichinhas começarem a cantar, preste atenção ao berro do bode. Ele vai te mostrar o caminho da casa dela. Ela é a mãe de nós tudo. Ela é o Céu e o Inferno.”

 

Não à toa destaco o trecho acima, trata-se de um convite. Não um convite à leitura de um ótimo livro de contos, mas a um sabbath, para dançarmos nus ao redor de uma fogueira no meio de uma floresta habitada por assombrações e criaturas com um elenco de mulheres intrigantes, instigantes e famintas.

Somos assombrados por essas estranhas criaturas provenientes de recônditos escuros e invisíveis, mas tão próximos e domesticados; próximos, pois estão nos cantos escuros, esquecidos de nosso interior, sagazmente projetados ao derredor.  Domesticados, vez que aprendemos a domar, domesticar nossos apetites, dando-lhes limites estranhos a própria natureza, cedendo com charme, eloquência, cordialidade. E é pelo contraste que Verena pouco-a-pouco vai revelando, desnudando cada um deles, conclamando a paradoxal luminosidade das trevas.

O sagrado e  profano revelam-se indivisíveis, uma só coisa, uma só essência, como se afluentes a desaguar no leito do mesmo rio. Vai nos conduzindo ao feminino e pelo feminino, ao selvagem dos corpos nus, da simbiose entre o homem e o animal, o civilizado e o primitivo. Produz uma experiência catártica, percebemo-nos enredados, envolvidos, seduzidos por integrantes de uma seita, aprisionados no ventre de um gigantesco boneco de palha e oferecidos como oferenda ao fogo. Tudo isso em um lugar entre a consciência e o desejo.

A mulher-loba mostra seus dentes, garras e majestade em A Tempestade. A solidariedade, a maternidade e a perda despontam em Um pardal pousa na janela. Aliás, a maternidade perpassa os dez contos, ora por sua sacralidade, ora por sua profanação, como na mãe que assiste os filhos definharem na esperança de que seu homem retorne pela mesma estrada que partiu (em Papa-formiga), na professora obstinada (em O berro do bode), na criança violada (em Bonecas), no heroísmo da mãe oprimida (em Porquizôme). A violência e a morte também estão presentes nos ciclos, nas bestas e na magia em torno do feminino.

Verena dedica o livro as suas avós, “exímias contadoras – e ouvidoras – de causos“, e isso sinaliza uma outra característica marcante do livro, o tom de causos (o que, em alguns momentos, me fez lembrar a ótima Dinorath do Vale). Além disso, tudo soa como algo entre anacrônico e o atemporal das histórias contadas nas cidades de interior. Fez-me lembrar de meu pai contando histórias junto ao balanço no terraço de nossa casa, e dele mesmo lembrando da velha senhora que reunia as crianças da rua numa roda para contar causos de assombrações, todos genuinamente “verídicos”.

A escrita está ainda mais afiada (em comparação a Larva, seu livro de estreia), com maior requinte e apuro, o que carrega em metáforas prontas a confundir (no bom sentido) os significados e intenções no texto e por trás do texto. Tudo bem medido e estruturado faz com que o livro fuja a regra de livros de contos, quando há alguns excepcionais e outros não tão bons, haja vista terem todos a mesma qualidade e tensão. Verena faz um ótimo retorno e, se antes eu já prestava atenção a seu trabalho, confesso estarei ainda mais atento.

Livro: O Berro do Bode
Autora: Verena Cavalcante
Editora: Penalux
Ano de lançamento: 2018
Contato: verenacavalcante.contato@gmail.com
Facebook: verena.c.livros

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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