Medo, fome e incertezas

Estava desempregado. Os últimos tostões que me restavam deram pra pagar apenas uma noite em um hotel desses que tem paredes tão finas quanto a linha tênue que separa minha vida de um filme do Hitchcock.

O quarto era minúsculo uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma escrivaninha e um espelho quebrado pendurado na parede, milimetricamente distribuídos em meia dúzia de metros quadrados. Joguei minha mochila sobre a cama, coloquei a máquina de escrever, único bem que eu não tive coragem de vender e que acredito que ninguém teria interesse em comprar, sobre a escrivaninha. Parti para o banheiro compartilhado que havia no final do corredor. Após alguns longos minutos de espera, o senhor que estava lá saiu asseado, embora ainda estivesse com um perfume enebriante de aguardente.

Com uma gilete velha, que de tão velha estava grudada à navalha, que eu tinha na mochila, eu driblava a atração que minha garganta exercia sobre a lâmina e tentava me barbear para procurar emprego no dia seguinte. Ao acabar, guardei a navalha, pois com muito jeito aquela lâmina ainda daria pra utilizar mais uma vez. Ao banho, a água de poço que caia pelo chuveiro vinha carregada de ferrugem, provavelmente dos canos de metal daquela velha construção, e se misturava ao meu sangue, que escorria de alguns cortes que não consegui evitar em meu rosto, chegando turva aos meus pés; o contraste daquela cor avermelhada com minha pele negra e o tom pastel do azulejo me lembrou uma pintura de Frida Kahlo.

Ao sair do chuveiro, percebi que o papel higiênico que havia ali era tão grosso que serviria facilmente para utilizar na máquina de escrever. Apanhei algumas folhas, me vesti, ainda molhado, pois já não possuía toalha de banho e o local não tinha para disponibilizar também, e voltei para o quarto.

Coloquei o papel na máquina de escrever, girei a fita até encontrar um pedaço em que a tinta não estivesse totalmente consumida, e só havia um pedaço vermelho utilizável, era indiferente, ninguém teria o desgosto de ler aqueles versos de poeta marginal. Olhando pro espelho quebrado, vendo retalhos de mim, escrevi com tinta vermelha em um papel higiênico grosso (capaz de foder o cu de qualquer um):

Portal

Eu vazio

Ex-vazio

E no espelho

Meu extremo

Eu na cadeira

Olho a caveira

Cadê a eira?

Cadê a beira?

A navalha

Na cabeleira

E na falha

A estribeira

Assimetria

Fusão da imagem

Há simetria

Falta coragem

A navalha

Agora barbeia

E na falha

Há uma veia…

Quando trocava o papel para insultar os deuses da poesia com outra blasfêmia de minha autoria, um choro de criança rompeu o silêncio fúnebre do hotel, saindo do quarto ao lado do meu, misturando-se ao barulho que havia em mim, ensurdecendo-me para as vozes que insistiam em fazer um sarau na minha cabeça.

O barulho me conduziu até a porta, abri lentamente e agora o rangido das velhas dobradiças me foram perceptíveis, pois o choro havia aguçado minha audição e minha irritabilidade. Caminhei até a porta ao lado e bati sutilmente para não gerar maiores ruídos do que os que já defloravam o ambiente.

Uma mulher de uns trinta e poucos abriu a porta, magra, visivelmente fraca, com lágrimas escorrendo-lhe o rosto, usando um vestido folgado, provavelmente de quando as refeições lhe eram melhores e com maior periodicidade. No chão, no canto do quarto, agachada com a cabeça entre os joelhos, a criança. Franzina como a mãe, devia ter uns 5 anos, chorava de fome e a mãe de desespero.

Não trocamos uma palavra sequer. Sai dali como se minha vida dependesse dos fatos que se sucederiam a seguir. Caminhei por cerca de 20 quadras até chegar ao albergue em que tinha tentado me hospedar antes de chegar ao velho hotel, não havia tido sucesso, pois já estava lotado. Mas eu sabia que ali eles serviam sopa para os hóspedes, estes, moradores de rua ou recém-desabrigados como eu. Tive que explicar aos voluntários qual era a situação. Não me deram muita credibilidade, acharam que a refeição que eu pedia era pra mim, não os culpo, pelo menos me deram a sopa.

Voltei ainda mais rápido do que fiz o caminho de ida. Ao entrar no hotel, percebi que o choro continuava, mas mais fraco, sem forças. Cheguei à porta do quarto delas ainda esbaforido, quando levantei a mão para bater, a porta se abriu. A mãe me olhou nos olhos como se eu fosse alguém digno de gratidão. Coloquei o recipiente com a sopa sobre a escrivaninha do quarto delas e virei de costas pra sair. A menina parou o choro ao sentir o cheiro da sopa, se levantou. Quando eu já atravessava o batente da porta para sair as duas me abraçaram pelas costas. Fiquei sem ação. Me deixei ser abraçado, mas não correspondi. Aos poucos, silenciosamente, elas afrouxavam o abraço e eu me desvencilhava delas. Caminhei até a porta do meu quarto e a do quarto delas se fechou. Mais uma vez, nenhuma palavra foi dada.

Me deitei na cama e o barulho que agora me incomodava era o do meu estômago roncando. Eu já havia me acostumado a não jantar, mas a caminhada fez meu corpo revindicar reposição das energias. Não lhe dei muita atenção. A cabeça devaneava por outras fomes. Pois, a saudade tem sabor de fome, e isso não é coisa de poeta. Me bateu saudade de tudo que perdi na vida, de tudo que deixei para trás. De repente, me peguei pensando no que seria daquela mãe e daquela menina no dia seguinte.

Levantei, datilografei o endereço do albergue em um pedaço daquele papel rasga cu, com tinta cor de sangue, e coloquei por baixo da porta do quarto delas. Mulheres com crianças tinham preferência lá.

Voltei para o quarto, sentei-me na escrivaninha e fixei meu olhar no espelho quebrado. Reconstruir cada pedaço de mim agora era inevitável, eu não fazia ideia de por onde começaria, mas mais em pedaços eu não poderia ficar.

Sai na porta do hotel para fumar um cigarro e tomar uma dose de aguardente com outro hóspede, aquele do perfume à base de cana. A cachaça entorpece o cérebro e aquece o peito.

Do outro lado da rua, um carro importado parado, enquanto o motorista pesquisava seu GPS, no conforto do ar-condicionado. Em uma das janelas do prédio de luxo à frente do hotel, uma família sentada à mesa com um banquete que alimentaria mais umas dez pessoas. Todos com as certezas de um amanhã tranquilo.

No meio da rua, dois cães latiam brigando por um osso. Olhei para o céu e tudo que sentia era medo, mas o medo é como a cachaça, é o ópio que aquece nossas dúvidas. E as dúvidas nos ajudam a continuar. Elas me trouxeram até aqui, em meio a minhas escolhas e minhas desgraças, sempre houveram dúvidas, e todas elas juntas (dúvidas, escolhas e desgraças) fizeram quem eu sou e me trouxeram até aqui. Deus me livre de ter uma vida sem desafios. Deus me livre de ter apenas certezas…

 

Renato Gomez

About Renato Gomez

Mestre em Estudos Literários, poeta, escritor, revisor de textos, professor universitário, servidor público, administrador do Espaço Devaneio e baixista da Banda Os Indecentes.

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2 Comments on “Medo, fome e incertezas”

  1. Eu me deixei levar pelo texto. A cada linha fui imaginando o local, os sentimentos e as situações.
    O texto me remete a tantos homens, mulheres, sejam jovens ou adultos que por motivos alheios a própria pessoa passa atualmente ou pior pela mesma situação.
    Parabéns! Vou enviara para os meus amigos.

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