Ex de estimação

Entro no Uber. Me identifico. O moço de expressão juvenil me cumprimenta com boa tarde. Eu respondo de volta. Boa tarde. Indico o caminho. Ele inicia a corrida. Desenlaço meu cabelo preso. Alguns fio soltos caem no tapete do carro. É quando olho sem motivo algum pro banco traseiro e percebo uma moça de cabelo ruivo ali sentada assando um pão numa torradeira. Gritei.

– Meu Deus!!

Exagerei no espanto!

– O que essa moça tá fazendo aqui?

Perguntei ao motorista. E ele respondeu de supetão:

– É minha namorada! A gente terminou tá com uns sete meses e desde então ela mora no meu carro!

– Como assim sua ex namorada mora no seu carro? Isso não existe! Pare esse carro agora!

– Em algum lugar a ex tinha que ficar… meu coração já não cabe tanta mágoa, e o único local confortável que tinha era meu carro. Minha mãe me ensinou a dar abrigo a quem precisa. De um jeito ou de outro a gente sempre guarda o ex da gente em algum lugar: na cabeceira da cama, na quinta gaveta do armário, enlaçado na toalha de banho, na xícara velha…tantos lugares cabíveis.

Olhei sem acreditar no que estava ouvindo. Gaguejei algumas palavras, mas lá no fundo eu concordava! Foi aí que eu olhei pra dentro de mim e vi minha ex acenado no meu peito. Eu nunca havia reparado. Mas ela tava lá, esperando ser percebida. Como pode a gente carregar dentro da gente alguém que já foi embora?

– Para o carro, eu quero descer!

Desci! Segui perplexa e dei de cara com minha vizinha carregando o ex marido na coleira! Gritei veloz pela rua implorando em urgência por um banho de descarrego!

(Ítalo Lima)

Ítalo Lima

About Ítalo Lima

Ítalo Lima nasceu em Teresina/PI. Formado em Publicidade e Propaganda e cheio de inquietações na pele. Poeta em estado constante de aflição. Amante confesso da palavra desde a infância, mas foi a partir dos 18 anos que assumiu abertamente o ofício como poeta. Em 2014 criou o projeto no Instagram (@italolimapoesias) onde vende poesia em moldura e até hoje vem curando a solidão através de quadros poéticos. Da solidão ao erotismo, cada verso parece rasgar a pele sem nem sequer pedir licença, inocente, o poeta Ítalo Lima escolheu a poesia como uma forma de retornar ao útero. Autor também da obra "Quando a gente se mata numa poesia", lançado em 2017, na Bienal do livro, no Rio de Janeiro.

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