Entulhos

Esses dias eu estive de frente aos entulhos do prédio que desabou em São Paulo no largo do Paissandu. Acompanhei através das mídias o ocorrido e sem dúvida é algo tocante que nos leva à paralisação: o que se faz nessas horas para socorrer, acalentar tantas vidas desabadas junto à escombros? Me senti inútil, pois mesmo que estivesse lá auxiliando como pudesse a coluna vertebral de toda uma segurança havia despencado andar por andar em ruínas de fogo. Agora aquelas pessoas se encontram perdidas nessa cidade imensa cheia de diversos outros escombros sociais. Há sempre uma parte do todo que paga um preço, que sente seu real valor desmerecido, atravessado por ondas externas muitas vezes inexplicáveis. Elas simplesmente são e lidamos com isso. De frente aos entulhos refleti sobre o vazio que havia ficado naquele espaço, o silêncio que havia ao redor mesmo com um grande evento acontecendo aos redores. O vazio estava lá e ao postar tal reflexão numa mídia social juntamente da imagem que fotografei botei a seguinte legenda: “a ausência dele estava lá. Era pra lembrar que no meio da alegria tbm há dor.” Tal legenda realmente me contemplou diante do que senti frente ao fato, mas o que eu ainda não havia notado é que essa legenda falava mais de mim que do próprio ocorrido. Conforme os dias se seguiam a tal reflexão (legenda) permanecia em mim, com uma certa frequência ela brotava em meus pensamentos quando sozinha caminhava pela cidade, pegava o ônibus e observava as paisagens, as pessoas. O vazio era mais meu do que daquele espaço, o silêncio estava mais em mim do que naquele prédio vizinho queimado. O sentimento de valor desmerecido era meu, o atravessamento vindo de ondas externas corria em mim e eu assim como aquelas pessoas me sentia unicamente inerte, como uma ampulheta. O paralelo que traço é poético, não cabe o mérito de quem sofre mais visto que se esse fosse o caso sem dúvidas aquelas pessoas estariam num patamar muito mais elevado do que o meu em matéria de dor, mas ter entendido que a dor que sinto é igualmente estranha como as delas me fez perceber que há dor em mim mesmo com a alegria ao redor e que a sua ausência é viva aqui. Você ainda está aqui.

Me reservei por longos 19 dias sem prantos e desespero para cuidar dos entulhos que ficaram quando você decidiu desabar. Estruturalmente eu me agarrei ao que tinha em mim de vertebral para amparar o que de psicológico já não tinha mais concreto algum. Tudo o que havia de sentimento guardado entre paredes, janelas, vistas e planos foram aos poucos sendo torrados, torturados e eu do lado de fora assisti chama por chama o consumo de tudo o que tinha mais belo, de mais reservado e amoroso por ti. Assisti em revolta, em ódio, em palavras ácidas, em medo, em lágrimas. Apenas me sentei do outro lado da rua pra ver você sumir em meio à fumaça e se tornar o vácuo de um lugar incomum para se circular, pois assim como lá aqui este espaço jamais será o mesmo.

Neste mesmo lugar crescerá um novo prédio e novas pessoas farão moradia em você, elas circularão por dentro do seu ser observando novamente da janela muitos sóis, luas e pessoas sentadas na calçada. A vida continua, ainda que gritando por uma pausa, ela segue e a gente vai caminhando aos tropeços dos restos que ficam até que em algum momento não haja mais nem isso. Somente a lembrança torta do que não era totalmente salubre, mas que era lar, era aconchego.

Talvez façam uma grande festa junina no local e um casal abraçado recém namorados vire a esquina e se depare com as barracas que nada mais são do que brincadeiras. Uma pena que as festas juninas acabem um dia e as fogueiras quase sempre são acesas por um fogo de palha.

mariknox

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Esquisita demais para viver, rara demais para morrer.

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