Entrevista com Nathalie Lourenço

O livro de estreia de Nathalie Lourenço, Morri por Educação (Oito e Meio) é uma grata surpresa. Seus contos são marcados por um humor refinado, irônico e ligeiramente maldoso, do tipo que te faz sorrir de situações absurdas, não uma gargalhada frouxa, mas um riso contido, cínico, acanhado e tão libertador quanto um “vá se lascar” dito na hora certa.

São histórias cruas, algumas beirando a crueldade, e densamente povoadas por personagens excitantes como Bianca, em Dentes, as artistas de Mecenas, Diego em Emoticon de boca reta, Os moleques do Beija-Flor, o avô em o Nono, e tantos outros. Em A arte de correr pegando fogo, o amor romântico cede ao amor por si mesma, quebrando a previsibilidade do leitor. Contudo, não se dá apenas aqui, mas ao longo dos “dezessete contos desgraçados”.

O trágico confunde-se com o cômico, ou melhor, Nathalie faz do trágico a matéria-prima de seu humor. Não é algo piegas como fazer dos limões uma limonada, mas mergulhar no amargo e admitir que é ele que nos diverte. Acertadamente, escreveu o crítico Sérgio Tavares: “Nathalie explora a faceta humana que se embaralha com as emoções, não por ser maldosa ou tola, mas por ser essencialmente humana.”

Tudo é desenvolvido com sagacidade, uma economia de palavras e de extensão. Delimitando-se tudo por meio de movimentações entre o realismo bruto e o completo absurdo. Um livro delicioso e empolgante.

Bom, Nathalie, antes de mais nada, quero agradecer a gentileza e disponibilidade em nos conceder essa entrevista. Isso posto, gostaria de saber como o Morri por Educação se “desenhou” na tua cabeça? Os contos foram confeccionados com esse propósito ou foram criados aleatoriamente e depois compilados no livro?

Oi! Obrigada a você pelo convite. O Morri por Educação surgiu da vontade de juntar tudo aquilo que eu vinha produzindo em um livro. Ou seja, os contos existiram primeiro, são textos que foram criados ao longo de três anos, e depois houve um trabalho de selecionar, organizar, reescrever algumas partes, ver o que eu ainda gostava e descartar o que destoava ou não fazia sentido para o todo. Aos poucos, a gente vê que existem temas e características em comum entre muitos dos contos.

Em Dentes, o conto que abre o livro, você explora uma tragédia pessoal que poderia causar pena, vira dramalhão e coisa e tal, mas você foca no grotesco, na repulsa ante a figura de Bibi. O trágico ganha “cores de Almodóvar” e projeta uma relação entre a completude e a incompletude. Parece ainda sinalizar sutilmente a noção de força, sendo Bibi mais forte física e emocionalmente que Gregório, e isso tudo é posto em meio a um surto. Interessante, que essa complexidade das protagonistas segue ao longo do livro. Há um jogo de esconde e mostra interessante. Como se deu a concepção de Bibi, Irina, Rebeca e as demais protagonistas? Foram elas que te encontraram ou você quem as encontrou?

Eu acho que todos nós temos os sentimentos misturados, um pouco de tudo, do que é bom e do que é mau. É humano, mas ao mesmo tempo existe esse esforço que as pessoas fazem de mostrar ao mundo apenas a face mais agradável. Na hora de criar as personagens, eu gosto que elas sejam dotadas de sentimentos mistos, às vezes até contraditórios. Algumas personagens surgem através de um pensamentos ou sensações minhas que ganham corpo. Se este ou aquele pensamento fossem uma pessoa, como ela reagiria, como se moveria pelo mundo? Geralmente esse é o ponto de partida e depois crio uma pequena biografia de quatro, cinco linhas com alguns pontos principais, características ou trejeitos das personagens antes de começar a escrever.

Nathalie, percebo as descrições não como espaços sendo preenchidos em teus contos, mas como elementos dinâmicos, quase pessoais no desenrolar da narrativa. Enquanto recurso para revelar as personagens e suas múltiplas camadas. Recentemente, li o Profs, escrito para o blog Mulheres que Escrevem, e também vejo isso nele. Há quase uma simbiose entre o cenário e as dimensões das personagens (risos). No mais, as descrições, por vezes, fogem do comum, como “A professora tinha a cara, corpo e cabelo de quem comia rabada às quintas-feiras”. É bem isso? Você poderia falar um pouco sobre a força da descrição em teu trabalho?

Acho que você teve uma percepção super acertada no que tento fazer com as descrições nos meus contos. Um dos motivos delas serem feitas de forma dinâmica é justamente para trazer fluidez ao texto. Não quero que o leitor sinta que a história parou, congelou, para eu explicar em detalhes que a casa era assim ou assado, que a almofada tinha tal cor e o que todo mundo estava vestindo. Acho que é algo que vem da minha experiência como leitora mesmo. Assim, acabo escolhendo alguns poucos elementos, e, sendo poucos, eles precisam ter sozinhos o poder de fazer alguém visualizar aquele lugar ou compreender aquela pessoa. Então, um tipo de roupa, um tipo de gesto podem ajudar a revelar quem é aquele personagem. E dificilmente o detalhe que vamos querer iluminar vai ser algo trivial como a cor dos olhos. O trecho que você menciona do conto Profs, por exemplo, é um pouco da perspectiva que a aluna Geórgia tem da professora, que contamina a narrativa em terceira pessoa. Não é exatamente uma descrição: o que você vai imaginar como cara de quem come rabada vai ser diferente do que outra pessoa vai visualizar. Nesse sentido, ela descreve mais a pessoa que está olhando, a avaliação pessoal dela do que o que ela está vendo.

Sabia que você escreveu o meu conto preferido sobre começar a fumar? (risos). Em A arte de correr pegando fogo, percebo uma certa urgência em viver. Engraçado, vindo de um conto em que a vida parece ser exatamente o que estraga tudo e a morte aparecer como um escape ou solução para que tudo permaneça perfeito e agradável. Há uma relação constante entre estar deixando a vida e a ansiedade ou o desejo de permanecer, continuar, viver. Poderíamos dizer que essa é uma das linhas de convergência entre os contos do Morri por Educação?

Que delícia saber isso! Sim, com certeza. A morte é um tema bastante presente nos contos e, mesmo naqueles em que ela não é parte principal, existe uma forma de resistência contra ela. Algumas das personagens se agarram ou descobrem essa vontade de viver, outras seguem em frente apesar da morte de pessoas queridas. No conto A Arte de Correr Pegando Fogo, acho que isso se mistura com a intensidade da adolescência em que tanto o desespero quanto a vontade de viver podem ser de uma enormidade esmagadora.

Em Sudário, que fecha o livro, você ironiza bastante com o sagrado e o profano. A ideia da noiva virgem prestes a experimentar o sexo e o fenômeno inesperado (não darei spoiler) aduz a uma contradição moral e social recorrente sobre a condição da mulher. Precisa ser bela, recatada e do lar. Nesse conto, o recato é tratado com ironia, a beleza é posta na crueza da linguagem (mais “masculinizada”, grotesca, chula) e o lar, no caso, o quarto, é onde ela quiser. O milagre final é o da emancipação da mulher ou o da denunciação da vergonha e hipocrisia alheia?

Eu vejo o milagre ali mais como uma bênção, na verdade, tem mais a ver com ela do que com os outros. Existe uma tensão no conto entre o desejo verdadeiro que ela e o noivo sentem e o dever religioso de aguardar e tudo aquilo está represado por muito tempo numa cultura onde o sexo é super valorizado. Quando finalmente aquilo tudo ganha vazão, e dentro das regras do jogo, o alívio e a realização são tão grandes que se materializam na forma do milagre.

Você colabora com o Mulheres que escrevem. Teus contos são protagonizados por mulheres. E há uma série de movimentos surgindo, como o Mulherio das Letras e o Leia Mulheres, chamando a atenção para o sexismo no mundo das letras e sua nefastas consequências. Porém, a autoras que dizem não estar nem aí para isso. Preferem continuar criando seus protagonistas masculinos, sem a menor pretensão de fazer uma literatura feminina e/ou feminista. Como você se enxerga em meio a isso tudo? Há um compromisso da tua literatura com essa causa e/ou demanda? Ou a escolha por protagonistas mulheres deu-se naturalmente, sem considerar tais questões?

Não vejo problema em mulheres criarem protagonistas homens nem vice-versa. Só que o que acontece é que na nossa cabeça, muitas vezes o personagem masculino é o default. Automaticamente a gente imagina primeiro o personagem como homem, e não precisa ser sempre assim. Comecei a observar isso e a tentar trazer mais personagens femininas para minhas histórias. Por quê? Acho que a gente encontra maior diversidade de personagens e personalidades em protagonistas masculinos pelo simples fato das pessoas escreverem mais sobre eles. Quando damos a preferência às protagonistas mulheres temos a chance de trazer essa mesma diversidade e pluralidade para elas. Criar histórias com mulheres gentis mas também com as hipócritas, as gananciosas, as distantes, as idealistas, as corajosas… enfim, pisar fora do quadrilátero mãe – esposa – secretária – puta. Não vejo isso como uma obrigação nem pretendo parar de usar personagens masculinos também. É só que ser mulher é tão diverso e versátil quanto ser homem. Por que a literatura não deveria refletir isso?

Você optou pelo conto. Como se deu essa opção? Quais contistas são indispensáveis para você? Quais os dispensáveis? Qual o que você está lendo agora (ou leu recentemente)?

Eu sempre gostei de escrever, só que antes não existia uma intenção, uma ideia principal. Eram coisas que surgiam na hora, e podia ser poesia, crônica, prosa poética, conto. Comecei a escrever mais seriamente depois da Oficina do Marcelino Freire. Ali a gente podia fazer diversos formatos e foi ali que descobri que gostava de escrever contos e de que conseguia planejar as histórias que queria contar. Eu sou uma pessoa que muda de ideia relativamente rápido, e com o conto consigo criar uma realidade em poucas páginas e partir para outros personagens, outras ideias, outros universos. Adoro os contos do Raymond Carver, da Margaret Atwood, do Cortázar, do André Sant’anna. De contos, li recentemente o Interrompidos da Alê Motta e o A Solidão faz Festa da Lygia Roncel.

Para concluir, como você enxerga a literatura produzida pelos teus contemporâneos?

Se a literatura é um reflexo dos nossos tempos – e eu acredito que ela tem que ser – é importante conhecer o que está sendo escrito hoje. Tem muita coisa boa saindo, como os dois de contos que mencionei ali em cima, com estilos e propostas totalmente diferentes. Um, cortante, rápido e irônico e o outro imagético, com uma linguagem impressionante. Tem para todos os gostos.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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