Entrevista com Roberto Menezes

Foto: Rafael Passos

Roberto Menezes é paraibano, físico e professor da Universidade Federal da Paraíba. Integra o Clube do Conto da Paraíba, que em suas palavras é “maior oficina de escrita criativa do Brasil” e já publicou  seis livros, sendo quatro  romances Pirilampos Cegos (2007), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (2009), Julho é um bom mês pra morrer (2015) e Palavras que devoram lágrimas  (2017); um livro de contos, Despoemas (2011), e;  o inclassificável  Conversa de Jardim (2018), em parceria com Maria Valéria Rezende (que resenhei aqui). Tem textos publicados em antologias e portais de literatura. Foi  vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011) e é um dos criadores da FLIPOBRE.

Recentemente, lançou o conto A Fragrância dos Loucos (Apaloosa Books), que traz um poeta que se envolve em uma aventura romântica permeada pela loucura, sordidez e volúpia. O narrador é frenético, não-linear, divagando entre a lucidez e o delírio. Conduzido com ironia e desenvoltura ganha o interesse e a atenção do leitor. Há magnetismo em suas palavras. Há também verdade, egolatria, fazendo o leito mais atento desconfiar do que é verdadeiro ou imaginado.

Roberto brinca com referências (creio que sejam), como o nome da personagem Silvia Rodrigues, advogada civilista, numa referência ao (quase esquecido pelos atuais meninos e meninas das faculdades de Direito) civilista, Silvio Rodrigues. Brinca com certas palavras (como “patuscada”, remetendo ao célebre bar do Eduardo Lacerda, editor da Patuá), mas isso deve estar apenas em minha cabeça. Não poupa ironias e indiretas a um certo tipo do mundo literário.

O texto é astuto, afiado, cheio de frases bem construídas e, propositalmente, feitas para serem usadas nas redes sociais fora do devido contexto, como ironiza o protagonista.

É A Fragância dos Loucos que nos traz aqui.

Beto, antes de qualquer coisa, quero agradecer a disponibilidade por ter aceito o convite para essa entrevista.  Para começar te pergunto; “Todo poeta tem a fragrância de louco”?

Rapaz, boa pergunta, visse. Pra responder isso, preciso falar um pouco do conto A Fragrância dos Loucos (Apaloosa Books) de onde tu pegou essa expressão. O narrador, quando eu quis construir ele, dá um tom caricato e cínico no monólogo que ele se propõe a fazer. Criar um personagem que ao mesmo tempo fosse irônico/sarcástico sobre o que fala, e ao mesmo tempo acreditasse no que estaria falando. E talvez resida aí a loucura que desenvolvo no texto. O que é loucura? O fato de alguém ter uma visão distorcida da realidade? Então, eu acho que quem se mete a fazer literatura tem sempre um viés de loucura na construção do texto. A escolha de certos personagens, vejo eu, muitas vezes é feita pra expor opiniões, frustrações e obsessões. Talvez quem veja de fora não perceba todas essas coisas, mas algumas transparecem em características dos textos, como o discurso, a maneira como constrói as imagens, etc. e tal. E olha que eu mesmo aqui me confundo quando falo autor/narrador/personagem. Falo por mim, na maioria das vezes construo personagens com visões de mundo transversais à minha. Mas eu estaria mentindo pra tu se eu dissesse que essas loucuras são unicamente deles, é claro que respinga neles um pouco dessa minha lucidez deturpada que fez querer ser escritor.

Logo no começo da narrativa é possível perceber uma crítica a uma certa “colunização social” da vida, incluindo aqui o mundo literário, uma ânsia em conhecer bem mais a biografia, as fofocas sobre o autor que adentrar na relevância de sua obra. Mas tenho certeza de que isso é apenas ficção, né mesmo?

Cara, isso é uma coisa que me irrita profundamente. O culto ao autor. Conheço gente que se diz especialista em literatura que tem a literatura como tema secundário quando se diz especialista em literatura. É bem comum ver esses seres humanos se traindo pelos poros quando dá pra perceber de cara que na verdade são leitores de Revista Caras bizarros. São especialistas em biografias e não em bibliografia. Vou nem me alongar nos meus comentários porque fico puto só de falar.

Outro aspecto interessante, também presente em seus romances é a tua habilidade em construir frases de efeito. Impressiona como soam honestas na boca do narrador, que também partilha da ironia das protagonistas de teus romances. Essa parece ser uma forte característica da tua escrita. Aliás, acrescentaria ainda o tom de monólogo, quer na verborragia intensa de Maria em Palavras que devoram lágrimas (Patuá), passando pelo tom agridoce de Laura, em Julho é um bom mês para morrer (Patuá), ou no cinismos e utilitarismo do poeta de A fragrância dos loucos (Apaloosa Books). Por que narrar sempre nesse fluxo de pensamento dos narradores? Como ocorre esse processo?

Fluxo de pensamentos? Mas narrar não é isso? Eu me pergunto sobre como se espera que se narre. Narrar de uma maneira canônica seria algo do tipo:

João acordou e me telefonou. Eu atendi no segundo toque após beber minha xícara de café. Ele me trouxe notícias do meu pai. João estivera com ele na noite anterior. Segundo João, o meu pai estaria disposto a reabrir o diálogo comigo. Eu não soube o que dizer a ele. Desliguei o telefone e fui trabalhar. Andei pelas ruas das cidades pensando neste telefonema. (inventei isso aqui)

Não acho que as pessoas pensam assim. Nestas conexões de informações, em frases que se conectam apenas pelas ideias. Eu falo muito de um tipo de narrativa que batizei de literatura drone. Como se o narrador fosse um drone sobre a cabeça do personagem. Tipo:

Maria fecha a porta da casa. Dá duas voltas na porta. Caminha pela calçada desapressada. Espera o semáforo fechar e atravessa a rua olhando pros transeuntes que vêm na sua direção. Maria entra no café e pede um chá de menta. O chá de menta demora dez minutos pra chegar. Maria tosse. Tosse outra vez. Tosse mais uma vez. Maria bebe o chá e sorri sozinha. (inventei isso também)

As pessoas não pensam assim, por que um narrador pensaria? Só posso falar por mim, e no meu caso deixo o narrador viajar nas ideias dele sem preocupação de coesão ou coisa parecida. Tento entender como funcionaria a mente dessa pessoa, como ela se expressa no dia-a-dia, e aí faço ela colocar isso no papel. Em Palavras que devoram lágrimas, Maria tem consciência do que fala, ela sabe que as frases que cria são longas e, mesmo sabendo que são de perder o fôlego, ela faz questão de alongar até irritar o leitor. No caso de Laura, ela já tem a preocupação em falar bonito, em criar frases que bem podem servir pra postar no Facebook, mas tentei fazer que soasse como um fluxo, mesmo que diferente do fluxo irritado e picareta que é o de Maria. Em A Fragrância dos Loucos, a verborragia caiu bem pro personagem poeta, me inspirei muito nestes poetas neo-beatniks que constroem textos carregados de imagens e frases longas. Então, o processo é esse. Só tento dá voz ao narrador.

Você parece brincar com algumas regras/diretrizes da escrita criativa. Por exemplo, há uma repetição constante do nome Silvia numa parte considerável do texto. No entanto, percebe-se o domínio técnico. E, ao menos para mim, torna-se ainda mais explícito quando o narrador questiona e desdenha àqueles a quem dedicou a vida tentando agradar, para quem produziu sua literatura (“Porras-loucas e acadêmicos”). Saindo do texto, pululam oficinas e cursos de escrita criativa, alguns famosos, outros nem tanto. Como você enxerga esse movimento de escrita criativa e essas regras forjadas para se produzir um bom autor e um bom livro?

Rapaz, eu acho que não importa o caminho, se quem se propõe a querer escrever faz uma oficina dessas e aprende a escrever é lucro, né? Quem sou pra falar o contrário. Eu fiz parte do Clube do Conto da Paraíba, a maior oficina de escrita criativa do Brasil. E só escrevo como escrevo por causa disso. Agora, picaretas têm em todo canto, até quebrando pedra. Vejo gente por aí que tá interessada só em extrair dinheiro de pessoas desesperadas pra ter contato com a escrita e o meio literário. Mas penso assim, qual área de trabalho não tem essas almas sebosas?

O teu narrador produziu sua literatura para agradar a porras-loucas e acadêmicos, a quem você quer agradar?

Eu quero agradar a quem venha a ler o meu texto. Sou um Narciso. Foda-se a pessoa de Roberto Menezes. Que admire um texto meu e ponto final. Por isso que zelo tanto pelo que escrevo. Por isso gasto tão pouca energia com outras coisas. Cansa, viu, fazer esse joguinho de cena literário.

O poeta descreve a advogada como um clichê, mas ele mesmo também não é um clichê?

Quem não é um clichê? Somos todos da mesma espécie. Estamos aqui há cem mil anos e todo dia surge um Zezinho ou uma Mariazinha se achando especial. Especial só o de Roberto Carlos no fim de ano, que de tão clichê se tornou algo único e indispensável. Todo mundo quando abre a boca é um Galvão Bueno, pior que não se percebe isso ao se olhar no espelho.

Para além desse olhar ao mundo literário, o teu conto trata de uma questão bem interessante a da paternidade. Na recusa à paternidade por parte do protagonista (na relação com o pai moribundo e com o enteado). Engraçado como se dele nada parece ser projetado do pai, muito dele é projetado no enteado, Marcos. A própria Silvia destaca essas semelhanças. A paternidade surge enquanto ausência, idealização e erro. Os que não foram abortados são chamados de “fetos sobreviventes”. Seria essa uma boa chave para interpretar o que se dá na relação entre o poeta e Márcia?

Sei responder essa pergunta não. Foi mal kkk

Fiquei curioso para saber quais as mensagens subliminares de cunho socialista na planta piloto de Brasília (risos). Evidente que é uma menção a essa polarização política que testemunhamos no Brasil recente. Como você acha que a literatura pode e deve refletir isso? Existe uma responsabilidade social naquilo que se escreve? Um compromisso em dizer as coisas levando em consideração gênero, raça, orientação sexual e por aí vai? Porque percebo que teu protagonista soa machista e politicamente incorreto por todo o texto. De certo modo, esconde-se sob a capa do louco, tal qual um escritor poderia fazê-lo sob a da liberdade artística.

A literatura sempre reflete a realidade em que o escritor está inserido. Não sei se quem escreve deva ter responsabilidade. Eu não tenho. Escrevo pra fugir de minhas responsabilidades. Sou um escritor irresponsável e me orgulho disso. Por outro lado, eu não sou um mau-caráter, logo isso se reflete no que eu escrevo. Se o cara soa machista e politicamente correto, é ele e não eu. E bem que poderia ser o contrário. Será que não é? Deixa eu tirar essa capa de louco das minhas costas que já tou me confundindo nas respostas.

Há um trecho interessante em que menciona um conto a respeito de um marinheiro que envenena toda a tripulação para seguir sozinho. O narrador menciona seu final abrupto, sem lirismo e declara: “Esse conto é daqueles que a pessoa quando escreve não vê outra forma de terminar.” Que contos você leu ou tem lido que se encaixam nessa descrição?

Acho que os melhores.

Para encerrar, gostaria que indicasse um contista indispensável, um dispensável e um contemporâneo.

Dôra Limeira e Dôra Limeira.

CRÉDITOS
*Foto: Rafael Passos

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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