Elegias ao país da memória

Há quem diga que memória é ficção. Assim, nada como lembramos ou como contamos é de fato o que foi ou o que era. Arrisco dizer que preenchemos as lacunas adicionando benesses, alegrias, sentimentos que só somos capazes de mensurar quando tudo aquilo não passa de uma memória. Aí fica fácil amar o passado.

“O passado não tem fim” assegura Joedson Adriano em um dos versos de seu Elegias do País do Sanhauá. As memórias de seu eu-lírico confundem-se com a vida da cidade condenada a estar tão próxima da capital e, ao mesmo tempo, tão distante, e, igualmente, condenada a legião de desvalidos habitantes (Bayeux, no estado da Paraíba). Tudo soa bucólico e grandioso, sem o requinte do dinheiro, da ostentação, da fartura, mas abastado pela lealdade, amizade, disposição e felicidade. É aí que adquire o seu tom nostálgico, com alguma melancolia dos românticos, porém seu o encantamento excessivo e os rodeios intermináveis. Joedson trabalha a linguagem com a destreza de um artesão, ou melhor, de um dos pedreiros que descreve na abertura do livro, mas sem perder em simplicidade quando necessário.

Começo quando o dia começa
eu ainda estou dormindo ou nem dormi ainda
mas o pedreiro acorda, não tem insônia nem sonho
orgulhoso de sua virilidade
com um sentimento de liberdade
que os filósofos não podem supor
e só um mendigo pode superar
se levanta pra erguer os pilares da terra
e as paredes morenas como sua pele
que de tanto sol talvez tenha câncer um dia
sem armadura e apenas um boné por capacete
o cavaleiro medieval com empoladeira e talhadeira

Há uma cronologia própria do país do Sanhauá. Ele tem um medievo, o seu “tempos antigos”. Aliás, tudo é narrado dentro dessa era. Tudo é concreto como os muros erguidos pelos pedreiros ou pelos ricos que mantinham seus empreendimentos no país do Sanhauá mesmo vivendo em outros lugares. E, como descrito, no primeiro poema, aprende-se por mímeses.  O pedreiro que ensina o ofício ao aprendiz, os mais antigos que ensinam os mais novos nos vícios e nos jogos, as mulheres da rua do cabaré ensinam os mais novos os caminhos do sexo (ainda que não plenamente necessário), o futebol na várzea os ensinam a fidelidade e a necessidade da guerra.

Nos tempos antigos não havia evangélicos
e nem tudo era pecado
o diabo não ficava de tocaia nas esquinas
embora eu também nunca tenha visto
um anjo à minha cabeceira
nos tempos antigos não havia ateus nem fanáticos
época de Pã e eu mais primitivo que os cristãos
em que até Deus era permitido e condescendente
não nos assustava nem com o purgatório
porque vivíamos no paraíso
mas também não brigávamos  nem brincávamos com Ele

Percebam que a aridez do que é dito não se faz persente em como é dito. Há sutileza no narrador, que pouco a pouco vai saindo da geografia e geopolítica do país do Sanhauá e vai mergulhando nas lembranças desse país, que parece tão distante e assustadoramente perto. Ele diz “quando morava” com a mesma força de quem quer dizer “eu o levo comigo”.

Ele também estabelece uma genealogia, que demarca sua geração.

Minha geração é a primeira de nossa genealogia
a ser alfabetizada por inteira
mal e mal o abc sabíamos
e perdemos parte de nossa selvageria
mas ainda sabíamos o certo e o errado
o sexo dos becos e a fúria das ruas
aprendemos a amar e nos vingar
toda a ciência trancendíamos

A sexualidade é recorrente no livro. Não é tratada com adornos desnecessários. Tudo é dito à bruta. Os meninos e sua necessidade de afirmarem-se enquanto machos, “chupando pequenos peitos”, indo à rua do cabaré, abraçando as meninas mais velhas nas festas de final de ano. Há uma cumplicidade nos jogos de conquista. E, como disse, mesmo aqui a tom bélico, que se estende às brincadeiras – o futebol com crânios ao invés de bolas, o barra-bandeira etc.

a violência nos forjou
o estado permanente de guerra era nossa diplomacia
e não há maior amizade
que a nascida nos campos de batalha

A periferia comumente confundida com a barbárie aparece com o espaço das lealdades, da dureza de quem faz o que for preciso, dos que morrem jovens e também daqueles que superam suas adversidades. O olhar para dentro a partir do lugar de quem a venceu traz um elemento nostálgico – melancólico, talvez – que perpassa todo o livro e lhe tira algum peso pelo, sem comprometer a sua densidade. Talvez esse seja o seu maior mérito, apresentar a aridez de seu mundo sem comprometer a sua beleza.

Joedson tem a grandeza de um Humberto Teixeira, consegue enxergar no mais desolador dos sertões a beleza que displicentemente deixaríamos de enxergar.

CRÉDITOS

Livro: Elegias do País do Sanhauá
Autor: Joedson Adriano
Editora: Moinhos
Ano de lançamento: 2017
Ivandro Menezes

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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