Efeito cascata

Fabiano, 15 anos, acorda pela manhã com o suor rastejando sobre sua testa, puxa um pedaço de lençol e a limpa deixando óleo sobre sua cama, levanta, vai ao banheiro, mija, lava as mãos e se olha no espelho. Fabiano fita suas tetas e sua gordura corporal atentamente durante alguns segundos, olha para elas com desprezo, pensa que se pudesse arrancava a força toda sua sobra e então não precisaria mais andar com os ombros entrevados para esconder seus mamilos, suas duas bolas do olho se enchem com seu corpo flácido. Ele aperta sua banha dos dois lados, fica de perfil para o espelho, imagina uma faca perfurando sua gordura a arrancando toda aquela voluptuosidade, tira as mãos de sua barriga, pega a escova e começa a escovar seus dentes com força se balançando todo.

Ele coloca o uniforme branco da escola e por cima dos ombros ele veste a sua melhor amiga, a camisa xadrez que esconde suas tetas, pega a mochila, toma um café e segue a pé até sua escola. Fabiano é um menino dito prodígio pelo seus pais, que afirmam, que, apesar do peso, e de terem já tentado de todas as formas fazer o garoto emagrecer, ele é um bom rapaz, educado e muito estudioso, já o próprio Fabiano não se vê como tal, ele só consegue ser assim pois resolveu estudar para que as pessoas tentem reparar menos seu corpo, então ele engole assiduamente todas as matérias e sabe todas as respostas dos professores na ponta da língua, durante o trajeto, ele encontra seu amigo Marcio que o chama de seu apelido:

– E aí gordão, beleza?

– Beleza

Marcio não queria ser amigo de Fabiano. Se não fosse pelo caminho que os dois fazem juntos ele nunca trocaria olhares com ele, vaidoso ele sempre pensa como Fabiano conseguiu chegar ao ponto de vestir 52, acha o cúmulo. Já inclusive o chamou para ir à academia diversas vezes, lugar que Marcio frequenta todos os dias da semana, coloca sua regata que ele imagina mostrar mais seus músculos adolescentes e passeia pela academia. Da em cima de todas as mulheres mas saliva mesmo é para um cara que ele não conhece o nome, quando seu homem favorito está no Supino, Márcio abaixa para pegar alteres e tentar ver a mala sobre a cueca escondida pelas coxas do rapaz, Marcio disfarça bem sua ereção, ao termino da averiguada, ele deita com as pernas levantadas e costuma fazer algumas flexões, até seu pau diminuir e não marcar o seu short de corrida.

Ao chegar na Escola, após discutir por todo o caminho sobre qual a menina mais gostosa que eles já viram, os dois se encaminham para a mesma sala de aula e então Fabiano é abordado por Eduardo e Breno, que pressionam seu colega de sala na parede e o chamam de saco de estrume, pelanca maldita, passam a mão em suas tetas e falam “ain, assim você me deixa excitado! ” Marcio trata a situação com desdém, abandona seu companheiro e entra na sala. Eduardo e Breno são amigos inseparáveis, eles zoam todos os alunos e cada vez que saem impunes de algo se sentem donos do mundo, menos com a Claudia, a única Transex da Escola que eles sequer trocam olhares, isso porque Claudia um dia viu os dois juntos no dia em que pegou fogo em uma sala e acabou matando o guardinha João, que dormia em serviço no momento e não conseguiu correr, Claudia havia pulado o muro da Escola para fumar um beck e flagrou Eduardo e Breno com gasolina e isqueiro na mão no momento do incidente, para o seu cala a boca, Claudia só pediu um boquete de vez em quando, pedido atendido prontamente pelo casal, e que nunca nem olhasse para ela durante o período escolar, tampouco em sua sala, Claudia era inescrupulosa pois acreditava que como a vida foi com ela, ela não deveria ter empatia com os outros a não ser por benefícios próprios.

Enquanto estavam rindo de Fabiano sem que ele pudesse fazer nada, a única pessoa que veio ajudar, empurrando a dupla, foi Marcinha, socou o peito de Eduardo e mandou eles vazarem, e eles saíram rindo. Marcinha é uma branca, magra, cabelo curto e boa família, estava estudando em escola do estado pois não conseguiu acompanhar a particular e por isso dizia a todos que não se adaptou ao ensino apostilado técnico, mas Marcinha nunca gostou de estudar e se esforçar na verdade e nunca sequer leu um livro.  Se declarava politizada e comunista, Marcinha militava em sua escola e pregava em sua fala o respeito por gays, negros, transexuais, gordos e principalmente mulheres, falava sobre tudo que aprendia com seus youtubers preferidos e por isso era adorada pela maioria dos seus professores que faziam vista grossa para suas provas em branco. Marcinha na verdade tinha horror ao Fabiano, só pensar no Fabiano sem camisa ela regurgitava, apesar de heterossexual, falava que era Bi para todos e que mulheres de todos os tipos eram lindas demais para não serem amadas. Um dia ela deu em cima de Marcos, um menino retinto de cabelo crespo, Marcos ficou todo animado com a situação, gostava de mulheres com o perfil da Marcinha, combinaram de se encontrar em uma festa, mas Marcinha nunca apareceu, ela nunca havia ficado com um negro e tinha certo receio se iria gostar ou não, quando Marcos foi cobra-la, Marcinha começou a dizer para as amigas que Marcos estava assediando ela, Marcos por sua vez aguentou calado por três meses os olhares de punição que as meninas deram a ele, fato este que gerou uma crise de pânico no rapaz, Hoje em dia Marcos tem ojeriza a feminismo e sonha em poder matar Marcinha um dia.

– Você tá bem Fabi?
– Estou sim, Marcinha, obrigado
– Não há de que, vou entrar….

Fabiano ajeita sua camisa amassada, percebe o rasgo que a dupla de amigos fez nela, mesmo assim não a tira, senta na última carteira da quinta fileira pois dali dava para ver certinho a Bianca, uma Morena de cabelos volumosos, lisos e grandes, com olhos  de jabuticaba que estava sempre rente a sua franja, Fabiano já escrevera muito sobre Bianca em seu caderno, canetava coisas sobre seus “lábios carnudos cor de mel” seus “peitos mesquinhos e bunda maldita que macumbaria qualquer pau que a visitasse” ele tinha sonhos eróticos constantes com Bianca, as vezes gozava na roupa só de olhar para ela, mas tinha muita vergonha de se aproximar e nunca tentou um contato. Bianca sabia de seu potencial e não dava “moral” para ninguém de sua sala pois eram muito novos, Bianca tinha um namorado de 26 anos que nunca a fez gozar, mas tinha dinheiro e carro do ano, porém nas entranhas de seu psicológico Bianca tinha uma tara muito grande por Fabiano, ela sonhava em lamber todo seu corpo, ou cavalgar sobre sua protuberância em sua cama de solteiro, se contorcer em meio àquela ilha, arrancar um pedaço da barriga com os dentes, porém, ela evitava seu tesão, precisava continuar bancando sua moral de mulher impossível e que só treparia com caras que pudessem dar algo a mais para ela, para manter o status de “peitos mesquinhos” dados por Fabiano.

– Bom dia Turma

– Bom dia professor – o coro

As 7:05 o professor Mauricio entra na sala e passa por todos os alunos desmaranhando aquela cama de gato, todos ali esqueceram um pouco de suas sobras e fitaram o professor que começou a escrever uma equação na lousa que perdurou por uns 15 minutos acompanhados em silencio total pela sala, Mauricio era exigente, não aturava um cochicho de seus alunos, os últimos a conversarem em sua sala de aula foram prontamente humilhados pelo professor, na ocasião, ele fez questão de mencionar o quão insignificantes e sem futuro eles eram, e que nunca chegariam a lugar nenhum, e por isso, a sala como um todo passou a não dar um pio durante sua aula, eles não queriam ouvir aquela realidade dita pela voz grave e rouca prejudicada por muito pó e cigarro que o professor Mauricio tinha.

– Bom, sobre essa equação do segundo grau, após começarmos o processo de resolução percebemos que caímos em uma regra de três e que se resolve com a divisão de 7 por 4, alguém saberia me dizer qual seria o resto dessa divisão?

A sala ficou em silencio por alguns minutos, menos no interior dos alunos. Fabiano, pensou que o resto poderia ser aquela sala inteira, que resto poderia ser a última gota de porra de sua bronha enquanto pensava em Bianca nua, já Bianca imaginou o resto de porra em sua Boca grudada em seu dente ejaculada por um boquete em Fabiano.  Eduardo e Breno pensaram que o resto poderia ser toda a corpulência de Fabiano, Marcinha quando ouviu a palavra resto, lembrou de todas as minorias com um ar de superioridade. Marcos logo imaginou os restos de Marcinha dentro de um saco plástico. Claudia atrelou resto ao seu pau mal concebido que a vida lhe deu e o que restou a Marcos foi somente seu tesão enrustido. Ao sair dali eles pouco sabem que o mundo engolirá seus restos, logo mais ou logo menos, mas como em um surto coletivo, todos engoliram suas ideias de restos e responderam em voz alta o número que estava escrito na lousa com a resolução de Maurício.

– 3 professor.

RC

Renan Chiaparini

About Renan Chiaparini

Poeta, cronista e romancista. Gostaria de ter vivido a época de folhetins. Participa de discussões sobre cometas, maquinas do tempo e lê manual de instruções para melhor uso de sua maquina de lavar. Tem poemas publicados na Revista CULT da UOL, Mallamargens e está prestes a publicar seu próximo romance "Dentre todas as pessoas, eu prefiro as putas".

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