Deus e o Diabo trabalham juntos

      Era um breu interminável, nada atingia minhas papilas gustativas, eu não tinha mãos, nem pés, não tinha cabeça, o breu não cheirava a nada, era algo de mim e o breu, só o breu, nenhum sentimento me avassalava, não tinha febre também, não tinha nada, nada até uma voz me dizer “oi”, eu respondi, e perguntei quem era, ele me disse “sou Deus”, eu respondi “prazer Deus, sou Tonnie”- eu te conheço já Tonnie – eu também te conheço, minha avó fala sempre do senhor – eu sei Tonnie, sei que você tem medo de mim também – não me leve a mal meu senhor, eu tenho medo de tudo que não posso tocar – pois é, eu como um ser todo poderoso, onisciente, onipresente realmente não tenho um corpo físico – entende o porquê do medo? – é claro que sim meu filho, pois bem, estou aqui, alguma pergunta? – algumas sim – então diga que eu responderei – por que a lua? Por que o Sol? Por que braços, pernas e outros adereços? Por que tenho que ir pra escola? O senhor é mesmo bom? O senhor me perdoa quando não presto atenção na missa, ou quando minto para o padre no confessionário dizendo que sou um bom garoto? – São muitas perguntas meu filho, posso responde-las todas à você com uma só frase, porque tudo isso que vivemos não faz sentido.
      Ouvi o barulho do relógio me acordando, eram 6:30, abri os olhos  e diferente das outras vezes em que algo supostamente espiritual viesse à tona eu não tive medo, acordei, escovei os dentes, peguei meu material e fui para a escola. Meu pais não acordavam mais para me preparar pois eu já tinha 11 anos,  então eu tomei um copo d’agua e parti com meu material sem café da manhã mesmo, café da manhã nunca foi meu forte, me dava sono. Cheguei na escola e me encostei no pilar, vi Gutti vindo a minha frente, fazendo um alongamento bucal, ele tinha essa mania, talvez seria tique, ele adorava fazer alongamento bucal várias vezes por minuto, uma outra mania dele e que eu encarava como um dom era de jogar saliva nos outros, ele tinha total controle de sua saliva, ele abria a boca e jogava saliva em quem quer que fosse, e ria pra caralho. As meninas amavam o Guti, os pais dele tinham grana e ele jogava bem futebol, então todas as vezes em que ele jogava saliva nas meninas elas fingiam cara de nojo, mas logo depois eu as olhava atentamente, e via elas sorrateiramente passando a língua na bochecha, puxando a saliva pra dentro da boca e cerrando os olhos, via o pelo das pernas ainda não depiladas se ouriçarem toda, as tremidinhas na virilha por causa da saliva, por causa de Guti.
      Eu não era o cara mais craque da escola mas era titular do time, tinha um bom passe e era trabalhador em campo, portanto Gutti precisava de mim, ele sabia disso, não dá pra fazer gols sem um bom passador, não tem como se destacar sem um cara que segura a tropa ali atrás, e de alguma forma eu precisava de Gutti também, éramos uma ótima dupla, por isso ele veio até mim, fez seu alongamento bucal e me disse “e ai” e eu disse “e ai”, fizemos o toque do time e ficamos ali 15 minutos rindo de quem o gutti conseguia acertar sua saliva até o sino tocar e entramos na sala.
      Era a professora de português Gilvana que nos dava aquela primeira aula, mulher alta para os meus 11 anos, de sardas, seios e bundas fartas, talvez Gilvana não fosse tão linda assim apesar de todos os caras da escola dizer o quanto ela era gostosa, mas talvez ela nem fosse tudo isso. O problema era minha paixão por professoras, elas eram tão lindas quando arrumavam o cabelo para trás e diziam aquelas palavras difíceis, quando diziam Ornitorrinco, Otorrinolaringologista, quando liam trava línguas sem titubear, e eu é claro era perdidamente apaixonado pela Gilvana, e aquele dia ela estava com a mesma calça jeans e a mesma blusa de semanas atrás quando ela me fez declamar um poema meu pra escola toda. Alguns caras me chamaram de bichinha, viadinho, e as meninas do 3° ano me descobriram, elas me olhavam e diziam que queria cuidar de mim, que eu seria um escritor famoso e pediram meu autógrafo. As mais novas morreram de ciúmes pois as mais velhas haviam me descoberto, e pobre de mim, eu nunca havia colocado meu pinto em nada, nem em cano PVC, nunca havia batido uma punhetinha sequer, nada, mas meu pau já ficava duro quando eu via uma bela moça, e eu sabia que as meninas mais velhas usavam um sutiã maior e tinham as pernas menos esquisitas, e eu pensava em beija-las todo santo dia, mas minha meta sempre foi a professora Gilvana, ela sorria dois sorrisos pra mim, ela seria meu cigarro matutino anos depois.
Gilvana entrou na sala segurando seu fichário que escondia um seio apenas, olhou para a sala, nos deu bom dia e começou a aula mencionando da beleza da literatura, que só a arte poderia nos salvar de um mundo fascista e misógino, que para termos pensamento critico precisávamos ler livros e por isso todos teriam que ir na biblioteca e pegar um livro para ler, portanto fomos até a biblioteca, me levantei. Eu e o Guti esperamos a sala toda sair e fomos os últimos só para poder ver o requebrado da professora. Não falávamos sobre ele, apenas víamos aquele requebrado sobre aquele salto e ficávamos imaginando ela cuidando de nós, nos dando mamadeira pra dormir e acariciando nossos rostos.
      Chegamos na biblioteca e eu escolhi “Frankstein”, Guti pegou “Viajantes do infinito” e me mostrou um livro, “contos do diabo”, que tinha uma capa vermelha e o satanás de chifrinho, com cara de tigre, segurando um tridente na mão. Guti sabia que aquilo era errado. Todo domingo nos encontrávamos nas missas, íamos juntos para a catequese e sempre tínhamos que nos confessar uma vez por mês. Eu e ele combinávamos não falar nada que fazíamos ao padre, não confiávamos em homens que tinham aquele ar de superioridade, ele nos olhava com aquele rosto angelical e sabíamos que havia algo errado ali, sem contar que ele podia contar aos nossos pais o que fazíamos, não era interessante, contávamos o básico, dizíamos que éramos bons com nossos familiares e amigos, era o bastante, mas eu sentia que toda vez Deus ficava puto comigo por ter mentido em confessionário, enfim, melhor Deus do que meus pais, era mais fácil assim. Eu peguei o livro da mão de Guti e escondi em minha bolsa, queria saber quem era esse tal de Diabo, e porque ele era tão ruim assim, Guti me olhou atônito, ficou dois minutos sem fazer seu alongamento bucal e passou a aula toda me olhando preocupado.
Assim que o sinal bateu ele se aproximou e me disse – Você vai ler? – Sim, eu preciso saber quem é esse tal de diabo – Ele me olhou com medo, mas era o guti, o guti não podia demonstrar medo, colocou seus olhares de confiança em suas pupilas e me acenou – Boa, leia e me dá depois, vamos descobrir quem é esse cara.
      Cheguei em casa e me senteia mesa para comer as almondegas ao molho sugo de minha mãe. Meus pais perguntaram como foi a aula e todas minhas respostas saiam com um frio na espinha, com medo, tinha o diabo dentro de minha bolsa,  Deus poderia me delatar, a bibliotecária poderia ter visto e ligado para os meus pais, eu estaria fodido se eles soubessem que a história do diabo estava do lado do meu fichário, meus olhos não fitaram os olhos dos meus pais naquele almoço, mas fui firme, e percebi que eles realmente não sabiam de nada, Deus não era um X9, X9 é uma raça muito podre para Deus, ele jamais faria isso.
       Meus pais foram embora, me tranquei em meu quarto, peguei o livro e comecei comer todas aquelas palavras, e cada página eram risos e mais risos, o Diabo era um puta cara legal pra caralho, ele errava igual nós, bebia pinga, falava mal das pessoas e se metia em encrenca, acabou a distância minha com ele. O Diabo podia ser o lateral esquerdo do nosso time, bater tazos com a gente tranquilamente, a gente riria dele, na adolescência ele tomaria vários corotes  e nos daria opções de um monte de literatura que não estão acessíveis aos cristãos, Mallarmé, Rimbaud, Allen Guingsberg,  falaria sobre todas elas e diria: “A poesia surrealista é a melhor de todas”. E eu havia conversado com Deus e o Diabo no mesmo dia e ri mais com o cramulhão do que riria com qualquer outra pessoa, eu havia feito minha escolha. O diabo era um cara realmente bacana.
Terminei de ler o livro em duas horas, fechei a última página e o peso da vida veio em cima de mim, Deus jamais me perdoaria por ter lido sobre a vida de Satanás, e pior, Deus sabia que eu havia gostado dele, minha passagem pro inferno já ficou marcada aos 11 anos e não havia o que fazer. Liguei pra Guti e disse, tentando amenizar minha culpa: “cara precisamos sumir com esse livro” – O que mano? O livro fala sobre o que? – Coisas terríveis cara, precisamos queima-lo – quais coisas? – Não queira saber mano, são coisas terríveis.  Houve um silencio, Guti recuou – Ok passa em casa. Coloquei o livro na bolsa, calcei algo confortável em meus calcanhares, peguei minha bike e fui correndo até a casa do Guti, ele saiu com sua bike e fomos até um terreno no fundo do bosque municipal, eu e Guti juntamos alguns galhos e colocamos o livro em cima. Guti pegou um isqueiro que ele havia roubado de seu pai e disse “Por Deus?” eu acenei, “por Deus”, e ele colocou fogo na capa e então fomos vendo Satanás derretendo e o fogo lendo todas as folhas, enquanto olhávamos um para o outro com o reflexo das chamas em nossas íris.
      Por Deus, destruímos uma literatura por nosso senhor Jesus Cristo, amem.
Renan Chiaparini

About Renan Chiaparini

Poeta, cronista e romancista. Gostaria de ter vivido a época de folhetins. Participa de discussões sobre cometas, maquinas do tempo e lê manual de instruções para melhor uso de sua maquina de lavar. Tem poemas publicados na Revista CULT da UOL, Mallamargens e está prestes a publicar seu próximo romance "Dentre todas as pessoas, eu prefiro as putas".

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