Contações

A Bahia é um estado gigantesco e plural – como dizem os baianos, é do tamanho da França – e, portanto, um caldeirão de influências, sotaques, cultura. Contudo, há uma Bahia mítica, cuja imagem é bem elaborada nas lestras de Caymmi e nos romances de Jorge Amado, povoado por figuras anônimas e comuns se vistas de longe, mas interessantes, ricas, folclóricas quando nos aproximamos. Essa gente que parece ficção está nos noticiários, nas ruas, nos canais do YouTube e protagonizam as Contações (Patuá), do poeta e escritor soteropolitano, Tiago D. Oliveira.

Em Sereia do dique, temos um corpo boiando, um rapaz que viveu apenas para desaparecer, mas não como quem entra numa caixa de mágico, mas que vai perdendo-se, sumindo lentamente. Pode ser pelo nome Jorge que vira cruelzinho e depois elzinho ou pelo anonimato no meio dos turistas, do dois de fevereiro, no ruge-ruge do carnaval.

Há subversão da ordem, do desejo, dos valores tradicionais da família, em Nara: sol e chuva, casamento de viúva (meu preferido). O mito da mulher de branco, que ataca homens desavisados, é revitalizado. Nara ataca para aplacar a própria solidão e impulsiona pelo medo a subversão da ocupação do espaço público/privado. Os homens correm para as casas, as mulheres ganham a rua. Cansados da fidelidade dos maridos, de seu cativeiro, as mulheres traçam um plano para retomar a normalidade.  Aqui há um deslocamento espacial e temporal, um quase lugar, uma quase Bahia mitológica e anacrônica. Não diria que é ruim, pois funciona enquanto fábula, sem compromisso com a realidade. Aliás, esse não parece ser esse tipo de livro.

As boas histórias e bons personagens seguem por todo o livro.  Uns são melhor desenvolvidos que outros, mas alguns padecem da brevidade. A escolha pela poesia como forma de narrativa incomoda no aprofundamento das personagens e suas histórias. As boas histórias cedem espaço para a forma dos versos, algumas coisas se diluem e, por conseguinte, são perdidas. Alguém pode arguir se tratar de um livro de poesia. Não discordo, e não opino por mera incompetência para fazê-lo, o que me faz olhar para as narrativas. Elas me interessam e, por isso, o estranhamento e a vontade de mais de personagens interessantes e tão representativas dessa Bahia simbólica e mítica.

Arlinda, Jão, Zé fim, o Velho do rio e tantas figuras de ontem, hoje e sempre vão sendo apresentadas poema a poema com certa dose de simplicidade, ingenuidade e baianidade.  Todos soam conhecidos, sem soar lugar comum. Essa sensação de familiaridade é um ponto positivo do livro, torna a leitura mais aconchegante.

Tal qual acontece num livro de contos, alguns poemas são melhores que outros, há pontos altos e outros baixos. No somatório, é bom livro.

CRÉDITOS
*Foto: Jean-François Rauzier

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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