Clarice Sabino lança seu novo livro, “Em Tuas Mãos”, pela Appaloosa Books

Clarice Sabino lançará – nesta Quarta Feira (7) – seu novo livro “Em Tuas Mãos” aqui na Appaloosa, e eu conversei com ela ontem através de uma longa conferência-entrevista afim de traçar uma idéia, um esboço-literal, de quem é essa escritora que tem sido cada vez mais evidente no meio-literário alternativo.

Antes que alguém por aí pergunte: sim, o Sabino vem de Fernando Sabino. Clarice é sobrinha-bisneta do grande, e demonstrou imenso carinho e respeito pelo parente (assim como eu também, sem nem ser parente do cara). O nome Clarice foi ideia da avó, que era devota da escritora e sugeriu o nome da neta, unindo finalmente Clarice e Sabino, já que em vida a união não passou das entrelinhas. Pois bem, meus caros e caras, o nome de Clarice Sabino é um romance.

Escrevo essa matéria um dia após ter entrevistado Clarice, então vocês vão me perdoar se a minha memória falhar, mas prometo contar adiante, e com o máximo de detalhes possível, como foi esse papo entre nós.

Clarice me atendeu por volta das 20h, diretamente de Buenos Aires, onde está morando e estudando até o fim desse ano. De prosa fácil e riso tímido, me contou que estava numa república com alguns amigos, “casa compartida” ela disse quase sem perceber a mescla de idiomas. Disse também que morava na casa de uma artista plástica local, Elena Iglesias Molli. Perguntei de cara:

— Você se incomoda com o nome Sabino? De vez em quando se referem a você como “a sobrinha-neta” de Fernando Sabino antes de usarem seu nome, isso te incomoda?

— Não — foi o que ela me disse prontamente — Eu tenho um carinho e uma admiração enormes por meu tio-bisavô, de forma que quando isso acontece eu, inclusive, entendo. Creio que as pessoas também sentem essa admiração, e tentam de alguma forma impulsionar o nome, suas matérias ou afins utilizando-se desse fato, e eu não acho isso ruim, afinal ele foi demais mesmo. Tenho muito orgulho dele.

Assenti e emendei outra pergunta: — E você é uma pessoa romântica?

— Completamente. Eu me apaixono muito fácil, crio laços, embora eu não seja uma pessoa necessariamente social.

“Se eu venho do Brasil e me apaixono por alguém na argentina, como vou me declarar senão mandando uma musica do Caetano?”

Clarice Sabino

— Então esse livro que vamos publicar, é obviamente permeado disso? — Pergunto.

— Totalmente. Eu tive recentemente uma fase muito conturbada emocionalmente, um momento de me desprender de um grande amor e também de me mudar, ainda que momentaneamente, de país. Foi muito intenso e difícil pra mim, mas creio que consegui tirar o melhor disso. E esse livro é inteiro sobre isso, eu não poderia negar. Quando eu cheguei na Argentina eu passava o dia inteiro – salvo obrigações – na biblioteca. É que na casa da Elena tem uma biblioteca, e é lá que eu me escondia. Não por dor, ou não só, mas por gostar de estar lá. Conforme foi expandindo minha experiência na argentina, eu também fui absorvendo melhor essas crises que trouxe comigo, esse amor, essas perdas, e acabei me reinventando aqui. O livro está inteiro ligado a essa fase. O livro é tudo isso.

— E quem você está lendo atualmente?

— Andei lendo Cortázar e Maiakovski, e li recentemente algo da Hilda também, um livro dela que ganhei de presente, “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”. Tive uma fase, essa de me exilar na biblioteca, em que eu tava lendo um livro de poesia por dia, eu poderia citar muita gente.

— E você lê gente viva? Pergunto.

— Claro! Poderia falar do Gabriel Cassar, que inclusive tem uma história bacana sobre como descobri ele: Apareceu na minha timeline um desses compartilhamentos com fotos de garotas super sensuais seguidas de frases literárias, e era justamente uma frase minha haha!  Então eu digitei meu próprio nome na busca do facebook e fui vendo os resultados. Cara, tem cada coisa que a gente encontra no facebook, né? Nessa, acabei esbarrando numa das crônicas do Cassar, e, putz, curti muito, acabei adicionando ele. Outro cara que eu poderia citar é o Ian Viana que é ótimo também.

Depois disso, acabamos conversando sobre a cidade que Clarice mora atualmente. A internet tava meio bosta e caía de vez em quando. Sempre retomávamos a conexão num assunto diferente, e isso não é uma crítica, em verdade acho que era em boa parte culpa minha. Acabei perguntando da infância, e da família dela, no que a escritora me contou que muito de quem é vem dos lugares em que viveu. Clarice nasceu no Rio de Janeiro, viveu alguns anos lá (é aqui que minha memória falha, e que não me importo pois pretendo ser mais amigo que jornalista meus pequenos gafanhotos e gafanhotas). Depois disso a escritora mudou-se para Belo Horizonte, onde viveu por 10 anos. Em 2015 aportou em São José dos Campos, e atualmente mora na Argentina. Em meio a essa jogada de conversa fora (e é daí que nascem as boas entrevistas, eu creio), pergunto se há outro tema literário para Clarice além do íntimo-vital:

— Creio que não — ela responde. Na verdade certeza de que não. Eu leio de tudo, mas não me vejo escrevendo outra coisa que não seja aquilo que me incomoda dentro de mim. Eu não sei, sabe,

“Se eu não vou me matar, matar alguém ou explodir um prédio, eu não vou escrever”.

Clarice Sabino

Dentre um assunto e outro, emendo outra: — Cê tem uma carinha de ser de boa, mas eu acho que isso daí é fachada. Clarice Sabino é uma escritora good vibes?

— Jamais. Eu sou ariana e muito impulsiva. Minha mãe sempre briga comigo por causa disso, assim como todos os meus ex. Mas é porque eu sou entregue a vida. É aquela poesia do Piva: “Abandonar tudo e sonhar alto”.

— E o que você espera desse futuro de “abandonar tudo e sonhar alto”?

— Conquistar o mundo? — ela ri — não, conquistar o mundo não. Eu não sei, apesar de odiar as pessoas eu quero muito ajudá-las. Eu não quero ficar reclamando no sofá enquanto tudo explode em volta. Eu vim pra cá pra me cursar odontologia, e aqui a minha cabeça mudou muito. Eu descobri que tudo está alem do que a gente planeja.

— E essas eleições? — Pergunto com cara de descrença.

— Olha, eu sou uma pessoa muito na minha, tenho poucos e bons amigos, e sou muito família. Não guardo rancor, embora eu seja muito ciumenta. Mas eu sou também muito revoltada. Respeito deveria ser algo óbvio. Nessas eleições todo mundo já sabia que esse mesmo todo mundo se odiava, mas a ponto de eleger fascista é bizarro. Me senti mal por estar fora do país e não ter votado, foi como ver meu futuro e o da minha família na mão de pessoas sem idéia nenhuma do que estavam fazendo.

“A única coisa que me confortou depois das eleições foi a carta de suicídio de Maiakovski”.

Clarice Sabino

Em meio ao papo que já tava longo, decidi fechar a entrevista. Já tava na hora de fazer a janta. Perguntei então o que Clarice traria da Argentina. Guardem as referências dela, num mar de nomes que foram destacados: El Mato A Un Policia Motorizado, uma banda bem firmeza e Joaquín Giannuzzi na Poesia. Completei então perguntando:

— Por que publicar um livro online?

— Por causa do lançamento do meu primeiro livro. Eu recebi muitas mensagens de pessoas que não tinham dinheiro pra comprar, e de pessoas que queriam o livro mas a tiragem havia se esgotado no lançamento e não tinha como pedir mais tão imediatamente. As pessoas não gostam de esperar, e eu acredito na literatura acessível. Acho que muitas pessoas tem preguiça de ler, conheço poucos que vão a livrarias por causa de livros, eu acho que o ebook eh um incentivo, é uma forma de facilitar as coisas, é só clicar e ler.

— E você gostaria de deixar um recado pra galera que tá começando agora na literatura.

— Continuem.

E foi isso. Demos for findo o papo e fui fazer o jantar. Obrigado pela conversa, Clarice, e um abraço! Clarice Sabino lança “Em Tuas Mãos” pela Appaloosa Books nesta Quarta Feira, 07-11-2018, passem lá.

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