Cada Forma de Ausência é o Retrato de uma Solidão

Cada Forma de Ausência é o Retrato de uma Solidão (Moinhos), segundo livro de contos do cearense Marco Severo, apresenta-nos a alegria do encontro com um autor inacabado. Explico-me: em tempos em que todos têm de estar em formatos definitivos, Severo impressiona demostrando frescor, ou seja, coloca-se sem medo de se refinar, melhorar, incorporar novidade e moldar influências e referências. Encontramos o mesmo autor de Todo naufrágio é também um lugar de chegada (Moinhos), mas também algo além, e isso é revigorante.

Em seus vinte e dois contos apresenta refinada ironia, doses de maravilhosa canalhice (na melhor acepção do termo), salpicadas por um humor cínico. Como isso também está em seu primeiro livro, confere a sensação de continuidade. E segue provocando o desconforto de sorrisos em momentos constrangedores, emocionando e incomodando ante o refinamento com que trata e desnuda nossas idiossincrasias.

É lindo ver que nem toda ausência remete a solidão, Marco Severo não se faz sozinho, mas evoca a boa companhia de grandes contistas. Dentre eles, temos Antonio Carlos Viana, cujo espírito permeia toda a obra; Julio Ramón Ribeyro, quem aparece desconstruído em contos como A âncora encoberta pelo mar, cujo título me remete ao Ao pé da Escarpa, da obra do peruano. Também o vemos no excelente Tia Clementina e na homenagem ao conto Urubus sem penas (de Julio) no ótimo Notícias Populares. Além deles, percebemos a menção a Verena Cavalcante, autora dos ótimos Larva e O Berro do Bode (que já resenhei), em Fofura e em Ser chacrete não é pra qualquer uma (afinal, ser  Verena Cavalcante não é pra qualquer uma).

No mais, suas personagens mergulham nos porões da sexualidade e da violência (como também o faz Viana); escancaram as desigualdades sociais e das classes em que habitam, iluminando suas ausências, riquezas e misérias (como o faz Ribeyro). Frequentam a infância sem beleza e inocência, marcada pela crueldade e maldade (como em Verena), expondo seus mais variados arranjos sociais e afetivos. Sua escrita exagera nossos preconceitos, lançando luz sobre o que preferiríamos manter em oculto. Por isso, o livro empurra-nos para dentro, e isso incomoda, emociona e diverte (sim, diverte).

Marco Severo lembra-me o endemoniado gadareno cuja resposta a Cristo foi que se chamava Legião, “porque somos muitos” (Marcos 5:9). Severo é bem isso, muitos autores, espíritos incorporados, agitados e sopesados para compor sua literatura ácida, amolada e extremamente bem cuidada.

CRÉDITOS
Livro: Cada Forma de Ausência é o Retrato de uma Solidão
Autor: Marco Severo
Editora: Moinhos
Ano de lançamento: 2018

 

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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