Budas do Século XXI

Era mais ou menos duas da tarde e eu cambaleava pela calçada de minha cidade e minha camiseta roçava um roc roc roc no meu peito com pelos junto com o suor porque fazia quarenta putos graus naquele dia e eu não sei se estava com mais fome ou sede porque nesses dias quentes é foda, a gente nunca sabe se tem fome ou sede e enquanto eu decidia o que eu tinha eu continuava caminhando e olhando o sol bater nos prédios, refletindo nos carros e batendo nos colchoes de minha bochecha. Eu via o asfalto queimar e ir formando imagens de camelos com sede e lá na frente me deparei com um mercado japonês que deviam ter japoneses calmos e plenos e devia ter alguma coisa liquida e deviam vender sushi também, e pensei “poha que lugar massa vou lá tomar uma coca e comprar uns sushis e comer em pé ali mesmo” cruzei a faixa de pedestres e o mercado era logo ali na esquina, antes de colocar o primeiro pé para dentro do mercado eu ouvi um “isso, anda mais um pouquinho, bate no meu retrovisor pra você ver o que acontece” era um corsinha velho que precisava cruzar pra esquerda enquanto um mini caminhão parou no lugar reservado para carga e descarga entre o corsinha e o cruzamento, houve uma tensão e todos ali próximos começaram a olhar para a cena, quando olhei pra dentro do caminhão me deparei com um japonês franzino e logo vi que ele ia depositar coisas japonesas ali no mercado, pensei “meu sushi pode estar dentro desse caminhão e esse corsinha tá atrapalhando minha vida” mas continuei a esperar pela cena, não estava com pressa e a fome não ia fugir da minha barriga, e então eu ouvi uma troca de marcha e o tiozinho japonês passou com o caminhão no  retrovisor e plah! Bateu, logo de prontidão saiu do corsinha três gordinhos bravos, furiosíssimos perguntando se o tiozinho japonês tinha amor pela vida, o japoneizinho pleno saiu do caminhão, os caras apontaram o dedo na cara dele e ele já deu um tapa na mão do cara e falou em voz alta “vocês vão tudo tomar no cu, seus bando de filho da puta, entra dentro desse carro e sai vazado” os gordinhos se entreolharam, a gente se entreolhou, e uns 30 segundos de suspense pairaram no ar, quando o tiozinho japonês viu que nada ia acontecer feijoada ele virou as costas e seguiu pra dentro do mercado e ahhh como o ser humano é baixo, um dos gordinhos ameaçou dar nas costas do tiozinho, mas japonês é foda né, eles tem aquele sexto sentido da hora que a gente conhece dos filmes e ele não me desapontou virou na hora e falou “Que foi? Não mandei vocês irem embora caralho! “ Os gordinhos ruminaram um pouco entraram no carro e vazaram…. Todo mundo que viu a cena queria bater palmas mas ninguém teve coragem, e quando o japoneizinho passou por mim eu disse:

 

– Caralho em tio, você foi pra cima dos três em.
– Ah, são tudo uns bando de bunda mole

entrei no mercado, comprei meu sushi, peguei uma coca e pensei, “eu admiro muito a calma e a sensibilidade desses japoneses viu, aiai….”

Renan Chiaparini

About Renan Chiaparini

Poeta, cronista e romancista. Gostaria de ter vivido a época de folhetins. Participa de discussões sobre cometas, maquinas do tempo e lê manual de instruções para melhor uso de sua maquina de lavar. Tem poemas publicados na Revista CULT da UOL, Mallamargens e está prestes a publicar seu próximo romance "Dentre todas as pessoas, eu prefiro as putas".

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