Belo Horizonte, Mas Espera Só Até Ver de Perto

O carnaval em Belo Horizonte tem ganhado credibilidade e visibilidade a cada ano, o que é extremamente rentável para o município, para a população e para quem vai visitar, visto que, devido às atrações das cidades vizinhas como centros históricos, cachoeiras, grutas, entre outros, não é frequente que os turistas fiquem em BH por mais de 5 dias visitando e alimentando o comércio local. Assim, o aumento dos investimentos para o carnaval por parte da Prefeitura Municipal tem atraído pessoas do Brasil inteiro e até mesmo estrangeiros. A qualidade da estrutura me surpreendeu, mas mais chocante foi o fato de haver muitas viaturas de polícia, muitos policiais entre os foliões e em nenhum momento eu ter me sentido oprimida, violentada, com medo, ou incomodada. Pela primeira vez na vida, vivenciei o que acredito que é e deve ser o papel da polícia militar: prover segurança aos cidadãos e cidadãs. Quase não houve brigas, somente presenciei duas e, enquanto a briga não parava, o trio não andava, o cantor não cantava e o pessoal não parava de vaiar. Ninguém ali queria saber de confusão, só queria curtir com leveza. Pela primeira vez, não fui oprimida e nem violentada numa festa por homem nenhum. Todos me respeitaram. A campanha nacional do ‘NÃO É NÃO’ foi extremamente efetiva, pelo menos, a partir da minha experiência. Isso me deu esperança.

Fui passar o carnaval em Belo Horizonte pensando estar indo para uma festa, mas eu estava completamente enganada. O carnaval até foi uma festa, maravilhosa, com uma energia incrível, diga-se de passagem, mas para mim foi muito mais. O que vivi foi uma experiência histórica-social-antropológica.

Certo dia, estávamos, eu e minhas amigas, no bloco ‘Funk You’ que há pouco, havia acabado. A multidão já se dispersava, mas a galera queria mais. Estava todo mundo cultivando uma energia incrível de celebração da vida, de simplesmente querer dançar, esquecer da rotina, entre vários outros fatores. Percebia-se que, a maioria em todos os bloquinhos, eram de outras cidades. A endorfina no sangue fez com que, extasiados, todos e todas começassem a cantar em coro uma canção enquanto, juntos, seguiam para o mesmo rumo, como se fosse um bloquinho feito ali por inconsciente coletivo. Um mar de gente agindo por conta própria, sem rumo, só queriam prorrogar o prazo da festa.

Saindo de uma avenida, o folião virou à esquerda onde na esquina havia, diferente de todos os arranha-céus espalhados pela cidade, uma casinha antiga, de arquitetura colonial que resistia ao ‘progresso’ e modernidade. Observando tudo, com olhar atento, avisto um homem de chinelos surrados, short velho rasgado, sem camisa e com uma lata de spray correndo em direção à casa tomado por aquele espírito de senso de coletividade, euforia, possibilidade, liberdade, existência. Ele escalou a mureta da casa e em questão de segundos pichou seu símbolo no muro de cor azul bebê. A multidão logo percebeu aquela intervenção e começou a andar mais rápido em direção a ele e, simultaneamente, vaiavam, ofendiam e humilhavam. Podia-se ouvir os gritos de ódio de longe, palavras que meus ouvidos prefeririam nunca terem ouvido. O homem, incrédulo, sem entender o que estava acontecendo, pulou. Por entre os berros, ouvi o estralar de suas finas havaianas no chão de concreto da calçada e imaginei seus calcanhares formigando muito, mas sendo aliviados pela tensão somada com adrenalina.

Nesse momento, por mais calor que viesse emanado do sol e reverberado pelo asfalto, congelei. Eu havia presenciado uma rejeição, falta de empatia e preconceito em massa. Uma ação completamente opressora, sem crítica social, egoísta e mesquinha em que uma pessoa começou e logo todos seguiram de forma automática, como se todo mundo houvesse perdido sua individualidade e sua capacidade racional de refletir. Elegeram, em questão de segundos, líder e sensata a pessoa que começou a balbuciar ofensas. Alguém a quem pareciam conhecer há anos e confiarem plenamente. Travaram uma disputa extremamente injusta em que, de um lado haviam mais de três mil pessoas inconsequentes e, do outro, a desigualdade social, o estereótipo e o preconceito. Nada além do cotidiano brasileiro, não é mesmo?

Naquele momento transcendi tempo, pois pensei em tanta coisa em um período tão curto que o ponteiro dos minutos não chegou sequer a completar duas voltas. Fiquei enjoada do estômago, minha boca amargou e logo me bateu mal-estar seguido de tontura.

Se o povo soubesse de sua força e de como usa-la, jamais permitiria e se submeteria ao retrocesso e cortes de direitos fundamentais em detrimento aos benefícios do livre mercado.

Não sei dizer como, mas senti que aquela pessoa era nativa e da periferia, pois suas feições se distanciavam profundamente das que a multidão apresentava. Seu corpo esguio, suas roupas, olhar e simplicidade eram totalmente distintas dos grandes, musculosos e brancos corpos que vestiam bermudas caras, tênis e óculos de marca. Várias questões surgiram a partir daí. Ao fechar os olhos e rebobinar o filme do acontecimento em minha memória, imagino que, provavelmente, aquele homem nunca esteve no centro de Belo Horizonte e nunca se sentiu tão confortável em se expressar estando ali. Pense comigo, um homem negro, periférico, que se expressa a partir do picho só sai à noite e, tendo em vista a origem desta arte, as leis proíbem, o que faz que o pixo seja clandestino e silenciado. Suas telas são paredes, muros, marquises, onde for mais alto para ganhar maior reputação. Propriedades privadas. Outras tantas, propriedades do governo que o priva de acessa-las.

Como não é tolo, cotidianamente, a noite é sua amiga. Não naquela data. Ali, naquele dia, à luz do dia, resolveu tentar uma amizade, se sentiu parte, se sentiu livre, rompeu as amarras da invisibilidade e da marginalidade. Pichou. Ele estava completamente enganado. Ele não ocupou, não ocupa, nem nunca ocupará esse lugar, pois a sociedade brasileira segrega, exclui, higieniza. Uma pessoa acostumada a não ter. Não ter direitos, não ter educação, não ter oportunidades, não ter, não ter, não ter. Uma pessoa que nunca teve políticas públicas formuladas para acolhe-lo e dinheiro investido em sua inclusão e ascensão social, repentinamente se vê num mar de gente aproveitando os investimentos feitos pela Prefeitura Municipal. Um montão de gente que já tinha, tendo ainda mais. Uma multidão que não entende a lógica da cidade coibindo a existência de quem, para o Estado, já não existe ou importa. Veja bem, não estou criticando o investimento na cultura, muito menos que pessoas de diferentes cidades, estados e países usufruam dele da mesma forma que uma pessoa que nasceu na cidade. Estou pontuando e enfatizando a ausência de investimento na educação e a latente permanência do racismo no Brasil que gera várias consequências. Estou, ainda, apontando que, nem dos investimentos feitos na cultura aquele homem tem o direito de usufruir, pois a lógica de vigiar e punir é tão efetiva que a própria população manipulada vigia e pune de acordo com os interesses de manter o status quo firmemente estabelecido que, por sua vez, segue as diretrizes de promover a exclusão, de julgamento a partir da moralidade e de sustentar e alimentar a desigualdade.

O homem virou a rua e nunca mais o vi.

Me perdoe por não proporcionar um fim esperado para este relato. A culpa não é minha, mas sim do sistema. Cabe a você viver todos os dias com coragem para tentar reescrever essa história tão igual ou comum, de forma diferente e enxergar além do que se vê.

Alanna Fernandes

About Alanna Fernandes

escreve poesia, produz áudio-visuais doidera e compõe umas canção tristona no violão

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