Ascensão e queda

Poderia dizer que Ascensão e queda (Cepe), de Wander Shirukaya, é sobre a trajetória de uma banda de rock do anonimato ao estrelato, mas seria simplista e equivocado pensar assim. Em verdade, o romance é sobre trajetórias – do underground ao mainstream, do ascensão à queda, da euforia à tristeza, do desconforto com o mundo a um lugar nele, da estabilidade à decadência, da alegria à dor etc.

Cada capítulo é narrado sobre múltiplos pontos de vista, as vozes de Johnny, Lune, Adrian e Walter – e, mais tarde, de Glenda – intercaladas vão desdobrando aspectos complementares e/ou redundantes  sobre cada acontecimento. Uma espécie de quebra-cabeça a ser montado pelo narrador. Lembra uma faixa de um álbum, na qual cada música é composta de voz, guitarra, baixo e bateria, e mesmo que em alguns trechos toquem as mesmas notas, há nuances diversas, pequenas variações imprescindíveis para a harmonia do todo. Algumas faixas são mais palatáveis, mais facilmente absorvidas, outras causam estranhamento ou soam cansativas e enfadonhas. Esse é um risco que o autor parece ter aceito correr.

Os personagens remetem aos esteriótipos do mundo do rock. Temos o líder carismático, construído sob a aura deprimida e sensível; o guitarrista virtuose, tecnicista e sedento pela fama; a baixista underground, alternativa, anti-establishment; o baterista apático, conciliador, mas que passa despercebido. A relação de amor e ódio, de desentendimentos, os egos em conflito, tudo é bem retratado. Contudo, não é só isso, há mais por ser visto e percebido. Shirukaya demonstra que mesmo o clichê pode ser matéria-prima para algo mais profundo. Subverte o equívoco em encarar profundidade enquanto complexidade. Entrega personagens fáceis, mas não, por isso, rasos.

A miscelânea de referências musicais e cinematográficas podem tornar o livro chato para alguns. Coisas mais acessíveis – como o Radiohead de OK Computer, R.E.M., PJ Harvey, Björk – e outras ilustres desconhecidas – como Neutral Milk Hotel – mesclam-se a Quase Famosos e outras cenas esteticamente comuns ao cinema.  Se para uns soa cansativo ou inacessível, para outros soa delicioso. Para mim, não compromete a fluidez da leitura.

Enfim, assumo que o romance pode soar problemático pela estrutura e pelo excesso de referências, mas a técnica de Shirukaya proporciona uma leitura rápida, sem rebuscamentos desnecessários ou truques metalinguísticos. Não há contorcionismos, mas uma escrita simples, direta e acessível.

Algumas pequenas coisas poderiam ter maior destaque e efeito se colocadas em separado, como a crítica feita ao disco da banda, a letra encontrada no quarto de Johnny. Há também a hidden track dispensável – o final funcionaria bem melhor sem ela. Contudo, nada que comprometa o divertimento do leitor.

Um bom livro. Vale a leitura.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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