As dores e a toxicidade de todos os homens

A novela de Roberto Menezes abandona suas protagonistas mulheres para dar voz a Gustavo Inácio Monte, um poeta ácido, macho tóxico, que destila soberba e indiferença ante uma indefinida plateia a quem direciona seu discurso.

Vemos como se envolve com sua advogada, a poderosa Silvia Rodrigues. O romance com ares de perfeição, até se deparar com seu filho Marcos, um jovem aspirante à poeta, que, a priori, lembra-lhe uma projeção de si num distante passado, e, com a filha Márcia, cuja aspereza e malícia acabam envolvendo-o num tórrido e destrutivo caso.

O narrador centraliza o foco em sua pessoa e com ironia, metáforas afiadas e criticismo mordaz vai enredando seus ouvintes na sequência de fatos que conduz ao seu surpreendente desfecho.

Todos os elementos característicos da prosa de Roberto estão presentes, como o fluxo de pensamento, o uso constante de metáforas e ritmo (aqui, começa lento e vai se intensificando). Há nítida sugestão ao Lolita, de Nabokov, quer na semelhança do narrador com Humbert Humbert, quer no clima de tensão. Mas a aproximação encerra-se aí.

Roberto nos oferece uma obra certeira, que brinca com os limites do politicamente correto, das discussões extensas e contantes sobre a masculinidade tóxica, apontando mais fragilidades risíveis de seu protagonista, que em tantos momentos parece com todos nós (os homens, os machos) diante do espelho.

CRÉDITOS

Livro: Trago comigo as dores de todos os homens

Autor: Roberto Menezes

Editora: Escaleras

Ano de Lançamento: 2019
Ivandro Menezes

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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