Appaloosa Entrevistou Roge Weslen, que está lançando seu livro de poemas “Ardências – Primeiros Amores & Desvarios” através do selo

Intro

A Appaloosa lançará amanhã, Quinta (22) o livro “Ardências – Primeiros Amores & Desvarios”, livro de poemas de Roge Weslen. Antes que isso aconteça, entrevistei o cara pra sabermos melhor de quem se trata. Há um bom tempo atrás eu adicionei, ou Roge me adicionou, no facebook. Conversamos pouco – quase nunca – mas acompanhei de perto a produção literária dele. A última conversa que tivemos foi quando Roge Planejava fugir pra vida mundo afora, talvez atravessar alguns estados de carona, e aí ofereci minha casa caso ele precisasse (parece que não precisou, eu acho). Meses depois ele entrou em contato comigo, mandou seu livro pra análise. Disse “se você achar bom, queria publicar pela Appaloosa”. Acontece que eu achei do caralho, e vamos publicar amanhã inclusive, e com prefácio de Bruno Sanctus inda por cima.

Na semana passada mandei um e-mail solicitando uma entrevista. Ia ficar embaçado via conferência pra ele, então rolou via e-mail. Aqui estão as perguntas que enviei (FR), e as respostas que Roge devolveu (RW). Roge é uma espécie de monge marginal, não vejo muita firula no que ele diz, ou grandes manobras literárias circenses, há sim economia, o essencial, e acima disso tudo: a lírica. E por falar em lírica, fiquei sabendo que o cara vai ser pai, fica aqui o nosso parabéns!

Entrevista

(FR) Who the fuck is Roge Weslen? Quem afinal é Roge? Não pergunto isso como essa galera de RH pergunta seus defeitos e bla bla blas. Mas conta pra gente, de onde vc vem? Nasceu aonde? Tem imigrante na família? Tem alguma alergia? Qual seu filme favorito. Fala um pouco de você pra nós, man.

(RW) Vamos lá. Sou de Belém, nascido e criado no famigerado & periculoso bairro da TF (Terra Firme), que os mais eufemistas gostam de chamar de Montese. Filho de caboclo acaraense (região mais ou menos próxima daqui da capital) & mãe cametaense (município bonito, lá no nordeste paraense). Meu pai veio cedo pra cá pra Belém, trabalhar. Conheceu minha mãe e toda aquela coisa. Cresci meio jogando bola nas ruas do bairro, meio nos bancos das igrejas evangélicas que minha mãe frequenta até hoje. Eu, graças a Deus, desencanei dessa vida sacra.

(FR) “Porque acredito que toda poesia – até mesmo a dita séria – é um estúpido desvario”. Foi assim que ce abriu seu livro. Ce parece estar meio puto. O que tem te deixado puto?

(RW) Bom, eu tinha todos esses poemas entulhados, aí os que não se perderam resolvi botar num livro. Achei que precisava de um texto introdutório, escrevi esse pequeno papo reto no começo, pra dar o tom. Eu tava escrevendo pouco na época, por vontade. Vivendo meus B.O. Tava puto mesmo com o que transformaram isso aqui de poesia, um jogo pra chatos & burros. Os cara pegam um livro pra ler e não sacam nada, talvez porque não viveram nada. Leram Bukowski e ficaram pra sempre uns complexados, dái o que digo nesse texto inicial. Eles não veem nada, não querem ver, porque acham que isso tudo é um jogo de cartas marcadas. Por pouco, se enganam. Uns doidos aí, ainda bem, estão ainda no caminho da insubordinação e subversão, são esses que não deixam isso aqui de poesia morrer.

(FR) Você é um cara que costuma estreitar relações? Você se considera um bom amigo? Cê seria da máfia ou seria um justiceiro?

(RW) Porra, cara, seria um justiceiro, sem dúvida. O péssimo amigo que sou, só meus amigos sabem. Mas me suportam, a maioria não me deixou na mão quando tava fodido. Sou um péssimo amigo, com ótimas amizades. Acho que é isso. Mas não fico próximo de qualquer um, não. Nem todo mundo me interessa, ainda bem.

(FR) Quem você tem lido ultimamente que tá vivo e atuante nessa coisa que chamamos de “meio literário”?

(RW) Tô lendo bastante a Roberta Tostes Daniel, o Bruno Sanctus, o João Gabriel. Tem muita gente, eu vou lendo tudo. Mas principalmente esses, o Felipe Teodoro, o Sândrio Cândido, a Simone Teodoro. Todos esses não deixam cicatrizar minhas feridas, fico sangrando, é o que eu quero.

(FR) Eu sempre me pego comparando a primeira e a última frase de um livro. Se em Ardências, cê abriu com “Porque acredito que toda poesia…”, vc fecha o livro com “Acredito que nunca mais nos veremos novamente”. Cê é um cara que lamenta, que chuta cachorro morto, que cospe no caixão, ou isso foi só uma observação?

(RW) Eu acho que já fui bem mais lamentador, agora toco o foda-se. Tou naquelas que o Sabotage disse, se eu fosse falar de todo o sofrimento, meu tempo não ia dá, ó.

(FR) Considerações políticas sobre nosso tempo? Bolsonaro é presidente, o mundo tá mais chato que nunca, o que farão os escritores, Roge?

(RW) Os escritores vão fazer o que resta pŕa eles, o que sempre fizeram: escrever. Se mais do que isso excede o ofício, que excedam. Eu tô com esses que não param nunca, que lutam. Política e poesia não é coisa demais pra um homem só, porra nenhuma. A gente tem que é que trabalhar nos excessos. Se equilibrando. As coisas tão ruins mesmo, fico triste de ver que Darcy Ribeiro foi profético: o Brasil sempre teima em não dar certo. Cabe a nós teimar no sentido contrário.

(FR) Cê reza? Tem algum tipo de espiritualidade? Imagine que vc ta subindo o Evereste, porque tá resolvendo essas tretas que você fala no seu livro, e perto do topo acontece uma tempestade, cê reza ou manda a natureza a merda?

(RW) Nem uma coisa nem outra. Eu chego lá, e fico olhando, parado, extático, como fico às vezes. Sonhando no sonho. Dentro do sonho. Eu faço isso e posso ver Deus; rezar é conversar. Eu nunca fui muito de conversar.

(FR) Quem vc já leu que as pessoas não deveriam ler nos dias de hoje?

(RW) Aquele cara, José de Alencar. Nossos jovens (e aí me incluo) não deveriam ser torturados com romances indianistas, na escola. É praticamente condenar um adolescente a odiar a leitura.

(FR)

“Perdido nessa biblioteca Perdido em todos os lugares
Só que agora longe da epopeia das ruas e suas multidões de desesperados e seus imigrantes com pequenos potes com notas de dois reais e seus olhos de anjos tristes
Os estudantes e seus livros didáticos cheios de saberes robóticos
preenchem as praças públicas de todo o mundo nesse momento”

Esse é um verso do seu livro.
Quando vc lê um verso do seu livro, vc se sente orgulhoso? Além do por que vc escreve Roge, eu me permito tomar o mesmo passo que Nietzsche tomou pra com a filosofia, e ao invés de pensar por que, te pergunto: Pra quem vc escreve?

(RW) Acho que não consigo chegar a ter orgulho, porque não me conformo nunca. O que acaba dificultando um pouco as coisas pra mim. Sempre termino por destruir ou perder uns bons poemas. Os desse livro foram os que não se perderam. É difícil responder isso, porque eu não busco comunicação direta com ninguém. Quem quiser me ler, que leia. Quando escrevo um poema, o que quero é, de fato, uma comunicação total comigo. O que nem sempre pode ser alcançado. O poeta acaba sempre por escrever para um público de sombras. As dele mesmo, e as dos outros.

(FR) Alguns homens são bons, outros são maus, mas ambas as coisas são raras, não são? A maioria das pessoas é simplesmente medrosa e egoísta (quase tudo pode ser explicado com medo e egoísmo). Você pensa em dividir as coisas, encontrar uma mina, casar, ter uns filhos, arrumar uns trampos, tem uma filosofia de vida nisso ou você ama por amar? Ama mais o amar do que o ser amado?

(RW) Sei lá. Eu só tô lá e que aconteça, é bom. Ruim é ficar empedrado sem amar ninguém. Aliás, anuncio ao mundo: vou ser pai. O moleque nasce em Janeiro. Não o maltratem, filhos da puta.

(FR)Mande um foda-se em formato carta aberta aqui embaixo, e se quiser, deixe uns abraços também no maior estilo Faustão. É nóis, mano. Parabéns pelo ótimo livro, e até breve.

(RW) Pois bem, deixo um salve pro Matheus Peleteiro. Foi ele que viu algum potencial em mim, há uns 3/4 anos atrás (??). Vocês que já tem os livros deles por aí, na rua, e ouvem falar. Vão ouvir muito mais, sei disso, porque ele também não se aquieta, não se conforma. Um grande abraço pro João Gabriel, meu comparsa, ele tá mais decrépito do que nunca em algum canto de Minas Gerais. Leiam ele, se forem corajosos. Outro salve pro Bruno Sanctus, que vai prefaciar esse livro, outro decrépito. Será que todo paulista é decrépito? Tomara que sim. Meus amigos daqui de Belém, que acreditam em mim, amo vocês: Evandro, Maria, Dayane, etc… Paro por aqui.

Appaloosa Books

About Appaloosa Books

A psycho, a developer and a writer walks into a bar...

View all posts by Appaloosa Books →