AP Entrevista – Maria Luiza Maia, organizadora da antologia “Corpo que Queima”

Falamos com Maria há algum tempo atrás sobre essa antologia. O Matheus Peleteiro tinha comentado sobre o projeto dela, e a AP foi lá saber mais. Maria explicou o projeto, a AP decidiu publicar, ela curtiu a ideia, e amanhã a Editora lança essa foderosa antologia: Corpo que Queima – Uma Antologia de Poetas Baianas. A obra reúne poemas de 41 autoras da baia, sob curadoria de Maria. São textos ferozes e precisos, imperdíveis. Afim de saber mais sobre M. e sua Antologia, mandamos uma entrevista pra ela, haha; uma entrevista que vc confere aqui embaixo. Valeu Maria!

Maria Luiza Maia (org.) é baiana de 1995, feirense e habitante da capital há 5 anos. É graduanda de Psicologia e estudante de Psicanálise. Não consegue precisar como nem quando a leitura e escrita entraram em sua vida, mas seus primeiros escritos surgiram por volta dos 10 anos de idade. Publicou seu primeiro livro, Algumas Histórias Sobre a Falta, em maio de 2018, de forma independente. Em setembro do mesmo ano, o livro foi relançado em segunda edição pela também baiana Editora Mondrongo. Ambas as tiragens estão esgotadas.

 

# Voce reuniu 41 mulheres Baianas numa belíssima Antologia. Por que as “Baianas”? 

Desde que entrei nesse “meio” e comecei a frequentar espaços e eventos literários por aqui, me vi cercada de escritores homens. Mas sempre foi muito claro pra mim que por perto, na cidade e estado em que moro, existem muitas mulheres que escrevem. Muitas delas eu conhecia de longe, de vista, conhecia através de alguma página na internet, mas sabia que existiam muitas outras, muitas delas que inclusive nem se consideram escritoras, apesar de serem. E eu queria conhecê-las. Queria que nos conhecêssemos, conhecêssemos o trabalho uma da outra, trabalhássemos juntas.

# Sua Antologia carrega, sem dúvidas, muitas bandeiras feministas. Foi intencional, ou a natureza da Antologia levou a tal teor? 

O delineamento da antologia foi construído a partir dos poemas que recebi. Essa era a ideia desde o início, já que não houve delimitação de um tema específico para os poemas inscritos. Mas confesso que já esperava que essas temáticas surgissem. Estamos num momento de muitos questionamentos identitários e políticos, não é uma surpresa ver que isso reverbera na escrita de tantas mulheres.

# Os livros mais vendidos atualmente foram escritos por mulheres: 50 tons de Cinza, Harry Potter, Comer Rezar e Amar, etc. 
Porem os grandes classicos raramente sao atribuidos a mulheres, salvo alguns mais modernos. A que vc atribui isso? 

Aos fatos que fizeram parte da nossa história, simplesmente. Desde o acesso tardio à educação, estudos e mercado de trabalho (algo que ainda não chegou a todas as mulheres ao redor desse mundo, é importante ressaltar) até o pouco reconhecimento das produções feitas por mulheres, não só literárias, mas em qualquer área – algo que, como imagino que todo mundo já saiba, fez a própria autora de Harry Potter que você citou, J.K. Rowling, usar as iniciais abreviadas para que não soubessem de cara que era uma mulher escrevendo aqueles livros. Inclusive, tá em cartaz agora nos cinemas um filme que fala sobre algo parecido: A Esposa. Recomendo.

# Apenas mulheres. Justo. Vc cre que a mulher eh apagada do mercado editorial? 

Acho que “apagada” não é o termo certo. Talvez subjugada. Ainda existe a tal da “literatura feminina”, que coloca todas as mulheres dentro de uma caixa só, como se o que escrevemos fosse sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, atingisse as mesmas pessoas. Sem falar que a tal “literatura feminina” é sempre branca e heterossexual. É foda. Somos muitas, milhares. E plurais.

# A antologia recebeu mais de 200 contribuições. Como foi dizer não? 

Foi difícil no começo. Pode parecer besteira, mas apeguei de alguma forma a cada escritora que entrou em contato, mesmo lendo só 10 linhas de biografia, mas cada uma tinha sua história e tava confiando seus escritos a mim. Uma boa parte nunca tinha nem mostrado seus poemas a ninguém. Eu tinha coisas muito preciosas em mãos. Passou a ficar mais fácil quando, depois de ler todos, comecei a enxergar um delineamento para a antologia, e daí fui vendo o que encaixava ou não dentro dele. Ou seja, as escolhas não foram de forma alguma pessoais.

# Voce tem planos para publicações futuras? 

Sim, sempre. Mas não consigo pensar em finalizar nada antes de defender meu bendito TCC.

# Conta pra gente: onde vc nasceu? Qual sua comida preferida? Está romanticamente apaixonada? Vc faz planos ou deixa a vida te levar? 

Nasci em Feira de Santana, interior da Bahia. Amo moqueca, inclusive gostaria de estar comendo uma agora mesmo. Não tô romanticamente apaixonada (aquele deus me livre mas quem me dera). Eu normalmente faço planos, alguns eu desfaço e percebo que não era bem o que eu queria, mas planejar/imaginar coisas que estão para acontecer (ou que nem sempre vão acontecer de fato) é algo toma muito tempo do meu dia.

# Indique um livro 

Pode ser mais de um? “Pai, não grite com sua filha”, de Míria Moraes – autora baiana que também faz parte da antologia. E “Desconstruindo Una”, de Una, uma graphic novel sensacional sobre cultura do estupro.

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