Agonia na Tumba

Imagine acordar no breu absoluto e dar-se conta de ter sido enterrado vivo. Pois bem, esse é o mote de Agonia na Tumba, romance de Tarcísio Pereira, lançado em 1993 pela Editora da UFPB. Todo o romance é ambientado dentro do túmulo e por meio de pequenos lampejos (representados por um isqueiro trazido no bolso) vai apresentando fragmentos de sua vida, experiências, caráter, sentimentos e relacionamentos.

Um nordeste do fim da década de 1980 é apresentado por meio de personagens caros a quem cresceu e esbarrou com eles pelo meio da rua, nos eventos sociais etc. Quem nunca cruzou com o bon-vivant frequentador de bares e bordéis? Quem nunca ouviu de suas brigas e confusões? Ou de sua esposa sofrida e leal, quem é motivo de orgulho e de ciúme por parte do sujeito? Pois bem, Tarcísio condensa esse tipo em seu narrador.

A sua “morte” é buscada em fragmentos de lembranças. Uma briga num casamento, um tiroteio num bordel, um afogamento num riacho da fazenda são os possíveis motivos de terem-no levado ao túmulo, mas tudo se mescla numa confusão de sentimentos, amarguras, desespero e agonia.

Elvira, a esposa, ora é aclamada como musa, ora fonte de muitos de seus desafetas, segue constante como uma necessidade e enquanto alvo da devoção marital. Em certo sentido, toma-a em sacralidade, buscando nos bordeis a satisfação de seus desejos mesquinhos. Tudo sem questionamentos como foi ensinado e como tem ensinado. Basta remeter a narração da (quase) primeira vez do filho de Valdomiro, que aos quinze é levado ao bordel para a sua primeira vez. O narrador diz que gostaria que seu filho fosse como o garoto e quando chegar a sua hora também o conduzirá ao mesmo caminho. Homem são ensinados a ser homens, e no romance isso se confunde com um ser cafajeste, com a afirmação conservadora de para ser homem é preciso afirmar sua masculinidade. Contudo, longe está de ser uma questão, isso é dado como natural, o que traz uma credibilidade incrível ao personagem.

Os relacionamentos são uma constante no romance. O narrador fala de Elvira, da fugacidade dos bordeis, mas também da relação tensa entre ele e o pai, morto de desgosto após uma de suas peripécias. O pai morto, posto abaixo dele, dialoga no túmulo, apontando-lhe os erros e clamando aos demônios que preparam a lenha para queimá-lo. Se delírio, se verdade, vai-se descortinando a relação conflituosa e, sobretudo, a não correspondência entre aquilo que o pai idealiza e aquele a quem o filho veio a ser.

As baratas, os sapos gordos, os fantasmas que o assombram, o calor crescente, o cricrilar constante a enlouquecer, os fragmentos da memória, os gritos desesperados, o clamor constante por Elvira, a lembrança dos filhos, o arrependimento e as promessas de mudança, as fezes enchendo o esquife. O escoar da esperança representada na chama do isqueiro que pouco a pouco vai definhando. A própria noção do real sendo posta de lado, as dúvidas do presente misturando-se as (in)certezas do passado. O caos sendo desenhado entre o desespero e a esperança concentrada no possível resgate. Tudo marcado por uma narrativa não-linear, fragmentada, confusa, requerendo do leitor atenção, mas sem forçar demais.

Aqui e acolá um pequeno erro de revisão, mas nada que comprometa a qualidade do romance, que chegou a mim por meio de fervorosa indicação de Tiago Germano, a quem agradeço. Sem dúvida, merece ser lido, celebrado e (espero que) relançado.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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