Paternidade Perdida

Os Abraços Perdidos, romance de estreia do catarinense, João Chiodini, trata da tumultuosa relação pai e filho.

No primeiro plano narrativo, Pedro narra seu difícil relacionamento com o pai, Antônio Carlos, um homem em deterioração (ausente, errante, agressivo, transformado e transtornado pelo álcool e pelas drogas). Gradativamente, o filho vai assumindo a responsabilidade de cuidar do pai, como nas madrugadas em que é convocado para ir em seu socorro na sarjetas, bares e zonas da cidade. 

No segundo plano narrativo, Pedro é visto como um homem bruto que tenta a todo custo convencer a namorada a fazer um aborto. Aqui não é ele o narrador. Se, de um lado, temos a visão que o filho tem do pai, aqui temos a visão do filho tornando-se pai. Nesse sentido, assemelham-se.  A dificuldade de Pedro em ser filho parece a mesma em assumir-se pai.  Sem se dar conta, reflete o pai nas atitudes que abomina. 

A rejeição à paternidade, somada a obrigação imposta pela realidade, traz a sensação de que a paternidade acontece, mesmo quando não a desejamos. Quase como uma maldição sutil, um destino inoportuno e certo, de que em algum momento seremos pai de nossos filhos ou de nossos pais.  Apesar de servir como atenuante, o amor é o que menos interessa ou importa. Em alguma medida, é algo que se esperam, mas que ninguém está realmente pronto.

Chiodini constrói um romance delicado, doído, sem pieguices e, sabidamente,  sem o alongamento que poderia  torná-lo cansativo. Bruto, mas bem medido, pesado e posto.

CRÉDITOS

Livro: Os Abraços Perdidos
Autor: João Chiodini
Editora: Editora da Casa
Ano de lançamento: 2015

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

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