A morte de Ray Cruz, e a permanência de seu legado literário

Ray e a Literatura

Ray Cruz partiu há alguns dias. Suicídio. E não queremos falar nisso por enquanto, por respeito, por falta de entendimento, por tato, por estarmos chateados. Por muitas coisas. Sei que cheguei em casa e amigos postavam mensagens de saudades no facebook e fiquei sem entender nada por algum tempo, até que entendi.

Tive meu primeiro contato com Ray há uns dois anos. Eu estava organizando a Antologia Gengibre, e fiz uma chamada publica para lançar novos autores junto com alguns caras e minas consagrados/as no meio literário alternativo. Aí o Ray me adicionou no facebook e veio trocar uma ideia, disse que escrevia e queria publicar. Só que ele nunca mandava o texto. A gente ficava conversando, e ele nada de mandar o texto.

Me lembro d’ele ter me contato sobre um trampo naquela semana. Me falou que estava trabalhando de servente de pedreiro e que os caras riam dele, diziam que ele era muito magro ou que era mocinha porque gostava de poesia. Ele falava isso num tom triste, embora bem humorado. Em pouco tempo criei uma visão mística dele. Como um ser etéreo, um bruxo, um extraterrestre tacando foco na existência, provocando tudo e todos. Fui atrás de ler os textos dele e pirei. Insisti “ow Ray, manda seu texto lá pra antologia”, e ele mandou mesmo. Mandou o texto Alforria (pág. 26).

Essa foi a pouca iteração que tive com Ray, mas a literatura dele me atingiu profundamente. Acompanhei um pouco a vida dele devido ao facebook. Sei que teve um relacionamento (ou muitos) e que tava empolgado com ele, sei que entrou em filosofia na UNB, e passou perrengues lá. Eu admirava a extrema sinceridade dele. Dizia que andava dormindo na rua e que sentia-se um mendigo por vezes. Quando lembro dele é como se eu me lembrasse de uma cria entre Burroughs, Oiticica, Basquiat e Literatura brasileira Rayense. Ray escolheu partir há três dias, mas sua literatura permanecerá. Cuidaremos pra que permaneça.

Obra

Ray deixou um imenso legado literário espalhado espalhado pela internet. Poemas, textos, reflexões, etc. A Appaloosa lançará uma coletânea clandestina desses textos ainda esse ano (sem data exata prevista, uma vez que isso ficou decidido há um dia). A organização ficará por conta de Matheus Peleteiro. Queremos reunir a obra de Ray numa publicação que traduza o espírito criativo e transgressor do escritor. Enquanto isso, deixaremos abaixo um texto dele, e uns kgs de links pra quem quiser ler mais do trabalho do poeta:

Último Desejo

quando eu morrer
se minha família
me ignorar tanto
quanto ignora em vida

não doando meus orgãos
não cremando o que restar
nem lançando minhas
cinzas na privada

se eu for enterrado
não como indigente
que sempre fui em
nosso exílio de cada dia

imploro que meus amigos
e conhecidos enforquem
cartazes em minha
lápide, cruz ou gaveta
com epitáfios provisórios

repletos de absurdo
e sinceridade
e se estiverem com preguiça
ou morarem longe demais
escrevam na seda de seus
baseados e fumem minha
memória
e se pararem de fumar
enfiem esses epitáfios em envelopes
e abandonem nas caixinhas de correios
de qualquer igreja.

__ Ray Cruz

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