A morte cheira a peixe*

*Um conto de Leonardo Bruno

O vento com fúria e sem dificuldade esvoaçava as velas rasgadas da jangada, debatendo-se em todas as direções. A jangada sacolejava à deriva no oceano inquieto e assustador. No seu interior, Odílio lutava contra as águas que insistiam em tomar conta da embarcação. Com ajuda de um balde tentava mantê-la sobre as águas, mas a embarcação apequenava-se ante o infortúnio.

A água na jangada parecia aumentar minuto após minuto, onda após onda. Assustado, movia os lábios de forma ininterrupta, repetindo orações, clamando por alguma ajuda. Não sabia mais o que fazer para resolver a situação que só piorava. A força diminuía a cada braçada com o balde cheio d’água lançado ao mar, a cada rajada do vento atroz. A dor, que há horas acometia os braços, espalhava-se pelas costas e parecia não querer parar por ali.

Fitando o céu, via nuvens escuras chegando de todas as partes. Pela experiência adquirida como homem do mar, sabia que em breve a tempestade cairia numa fúria infernal. Então, seria o fim.

A fera gigantesca tal qual jamais imaginara ver, acompanhava cada movimento da jangada. Parecia não só perceber os infortúnios pelos quais Odílio passava, como também prever o desenrolar dos acontecimentos.

Com movimentos suaves a fera deslizava pelas águas espreitando tranquilamente o banquete que estava por vir. Talvez conseguisse imaginar o gosto da carne do pescador em sua boca. Quem sabe já tivesse provado carne humana e, gostado, ansiava por repetir a iguaria.

Mil pensamentos passavam pela cabeça do pecador. O terror toma conta de si e se traduz em tremor. Nunca imaginou acabar assim, de uma hora para outra, de maneira tão cruel. Em seguida, imaginou ser tudo um sonho, aquilo não poderia está acontecendo, mas a realidade logo veio à tona com a imersão da imensa barbatana, a barbatana da morte.

Vivia exclusivamente sob a subserviência do mar, ora amigo, ora algoz. Dedicara-lhe anos de sua vida, sem jamais imaginar que lhe cobraria também a vida. Pensou na mulher em casa cuidando das crianças. Sentia sua falta mais do que nunca. Queria estar em seus braços. Amá-la uma vez mais. Não na rede de forma silenciosa, com medo de acordar as crianças, mas numa cama pra meter com força e ouvi-la gemer.

Pensava nas crianças. Das três, a mais nova era seu xodó. Sempre quisera uma menina e quando veio a encheu de mimos e mesuras. Os outros dois ficavam com ciúmes, mas bobagem deles, amor tinha para os três, cada um na sua forma única de se expressar, seja por palavras ou por ações. Será que deixou isso claro? No fim, as pessoas sempre acham que poderiam ter sido melhores.

A jangada balançou com força dessa vez, quase virou. O peixe tinha pressa, fome, atitude; Odílio, apenas medo.


Sobre o autor

Leonardo Bruno é baiano de Paulo Afonso. Cresceu às margens do Rio São Francisco, onde estuda História e mora com esposa e filhos. Nas horas vagas arrisca-se pelo mundo da escrita.

About Ivandro Menezes

Nascido em Mamanguape, Paraíba, em 1980. É professor da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Na maioria dos dias, contenta-se em ser pai, esposo e professor; quando não, escreve contos.

View all posts by Ivandro Menezes →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *